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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Astrônomos dizem que nono planeta do Sistema Solar existe e calculam sua órbita

Por Salvador Nogueira

Uma dupla de astrônomos nos Estados Unidos tornou ainda mais quente a busca pela existência de um nono planeta no Sistema Solar, ao dizer que sabem exatamente em que órbita ele estaria. Não são dois malucos, mas o menino-prodígio Konstantin Batygin (de quem já falamos aqui) e o renomado Mike Brown (também conhecido como “o homem que matou Plutão”), ambos do Caltech (Instituto de Tecnologia da Califórnia).

“Se você disse, ‘temos evidência para o Planeta X’, quase todos os astrônomos dirão, ‘Isso de novo? Esses caras são claramente malucos’. Eu diria isso também”, brincou Brown, em entrevista à revista “Science”. “Por que isso é diferente? Isso é diferente porque desta vez nós estamos certos.”

O planeta estaria numa órbita bem elíptica (nibirutas se arrepiam), mas que nunca chega realmente perto do Sistema Solar conhecido (nibirutas desanimam). Seu periélio — a aproximação máxima do Sol — se daria a 200 unidades astronômicas de distância, pouco mais de seis vezes a distância entre Netuno e o Sol. Seu afélio o levaria tão longe quanto 600 a 1.200 unidades astronômicas. Sua massa seria estimada em coisa de 10 vezes a da Terra — o que o colocaria numa escala intermediária entre o maior do rochosos (nosso planeta) e o menor dos gasosos (Netuno) no nosso Sistema Solar. Uma superterra ou, mais provavelmente, um mininetuno. Para completar uma órbita em torno do Sol, ele levaria entre 10 mil e 20 mil anos. (Para efeito de comparação, Netuno fecha uma volta em 165 anos, e Plutão, em 248 anos.)

Os pesquisadores propõem a localização de sua órbita (com inclinação de cerca de 30 graus com relação ao plano das órbitas dos outros planetas), mas não sabem exatamente em que ponto dela o planeta pode estar. Ao publicar seu artigo, no “Astronomical Journal”, eles invocam outros astrônomos a iniciar a busca — assim como eles mesmos já estão fazendo. Brown é especialista em achar objetos distantes no Sistema Solar, tendo descoberto Éris, o objeto transnetuniano que levou ao rebaixamento de Plutão da categoria de planeta.

AS PISTAS
“Embora estivéssemos de início bem céticos de que este planeta poderia existir, conforme continuamos a investigar sua órbita e o que ela significaria para o Sistema Solar exterior, começamos a ficar cada vez mais convencidos de que ele está lá”, disse Batygin em nota divulgada pelo Caltech. “Pela primeira vez em cerca de 150 anos, há evidências sólidas de que o censo planetário do Sistema Solar está incompleto.”

A órbita do Planeta 9, como eles o estão chamando, e dos objetos estranhos além do cinturão de Kuiper (Crédito: Caltech)
A órbita do Planeta 9, como eles o estão chamando, e dos objetos estranhos além do cinturão de Kuiper (Crédito: Caltech)

Batygin e Brown estavam em busca de uma explicação para as órbitas estranhas encontradas em alguns dos objetos localizados além do cinturão de Kuiper, como Sedna e 0 2012 VP113 (ambos co-descobertos por Brown). Sua excentricidade os levava tão longe do Sol que pareciam sugerir a existência de algum astro de grande porte além de Netuno, capaz de tê-los colocado em sua configuração atual. O que se seguiu foram um ano e meio de simulações e estudos para encontrar uma solução que explicasse tudo.

A resposta perfeita veio numa simulação de um planeta com uma órbita anti-alinhada, ou seja em que o periélio esteja do lado oposto do Sistema Solar com relação a todos os outros planetas. Com isso, a simulação bateu exatamente com o que se vê nas órbitas dos objetos transnetunianos. Segundo Brown e Batygin, a chance de isso ser uma coincidência é de 0,007%. É um número suficientemente baixo para apostar que eles têm razão, e que o Sistema Solar está a ponto de ficar maior e ainda mais interessante.

EM BUSCA DO PLANETA 9
Brown e Batygin já iniciaram a caçada ao novo mundo solar. Se ele estiver neste momento perto de seu periélio, talvez já existam imagens dele feitas em rastreios anteriores — falta analisá-las e encontrá-lo. Caso ele esteja no ponto mais afastado de sua órbita, somente os telescópios mais poderosos do mundo, da classe dos 10 metros (como o Keck, o Subaru, o VLT e o Gemini), poderão encontrá-lo. Se, em compensação, ele estiver em sua distância média, muitos telescópios profissionais poderão acabar por encontrá-lo.

“Eu adoraria achá-lo”, disse Brown. “Mas também ficaria muito feliz se outra pessoa o encontrasse. É por isso que estamos publicando esse artigo. Estamos que outras pessoas vão se inspirar por ele e começar a procurar.”

FORMAÇÃO MISTERIOSA
A descoberta, se confirmada, além de causar um tremendo rebuliço entre os cientistas planetários — que terão pela primeira vez a chance de estudar um planeta de tamanho intermediário entre a Terra e Netuno (esses mundos parecem ser comuns fora do Sistema Solar, mas até então não tínhamos ideia de que poderia haver um logo ali na esquina) — vai dar bastante trabalho aos teóricos que estudam a formação do Sistema Solar. Porque esse novo planeta, na verdade, estaria numa região em que em tese ele não poderia ter se formado. De alguma forma, ele migrou para lá, depois de ter se formado mais perto — ou muito mais longe.

“Vejo duas formas em que um planeta desse tipo poderia ser colocado numa órbita longínqua”, explicou Rodney Gomes, astrônomo do Observatório Nacional que é especialista em dinâmica de formação do Sistema Solar, em um comentário aqui mesmo no blog, na semana passada, quando o Mensageiro Sideral tratou dessa busca pelo possível nono planeta. “Primeiro, da mesma forma em que cometas são colocados no que chamamos de nuvem de Oort, através do espalhamento desses objetos num sistema solar primordial. Um desses objetos poderia ser um planeta em formação. As órbitas de planetas em sistemas extra-solares parecem indicar que houve muitos encontros próximos entre planetas em formação e alguns desses foram jogados para distâncias mais afastadas e podem ter sido colocados em uma órbita estável através da ação da força de gravitação da galáxia. Existem inclusive algumas boas evidências de que o nosso Sistema Solar incluía pelo menos mais um planeta do tamanho de Urano ou Netuno.”

E a segunda forma é ainda mais intrigante. “Como o Sol foi formado muito provavelmente no que chamamos de aglomerado de estrelas, não só o Sistema Solar em formação mas outros sistemas estelares estariam se formando nessa época na vizinhança do Sol. A consequência disso é que muitos planetas devem ter sido ejetados dos vários sistemas planetários vizinhos em formação. Em virtude disso, esse aglomerado de estrelas no qual o Sol estaria imerso seria na verdade um aglomerado de estrelas e planetas ‘errantes’ fugitivos dos vários sistemas planetários vizinhos do Sol. Num ambiente desse tipo, é possível a captura de alguns desses planetas errantes por estrelas.”

Ou seja, talvez o (por ora hipotético) Planeta 9 possa ser até mesmo um membro desgarrado de outro sistema planetário. Não seria incrível?

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