Mensageiro Sideral

De onde viemos, onde estamos e para onde vamos

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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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“Se houver vida em Marte, saberemos nos próximos 5 a 15 anos”, diz cientista

Por Salvador Nogueira

Se houver vida em Marte, “logo saberemos”. “E ‘logo’ significa nos próximos 5 a 15 anos.” É o que diz o astrobiólogo Charley Lineweaver, pesquisador da Universidade Nacional Australiana que causou frisson ao apresentar a hipótese de que provavelmente nunca encontraremos vida alienígena, pois na imensa maioria dos casos ela está destinada a ter uma existência curta e se extinguir pouco depois de seu surgimento.

De acordo com ele e seu colega Aditya Chopra, o que aconteceu na Terra nos últimos 4 bilhões de anos — tempo em que a vida tem persistido em evolução no nosso planeta, culminando no surgimento de uma espécie tecnológica — seria um evento extremamente raro. Ou seja, nada parecido teria se repetido em nenhum outro lugar suficientemente próximo a ponto de podermos encontrá-lo. Na prática, a hipótese da dupla, apelidada de “gargalo de Gaia”, equivale a dizer que estamos sós no Universo. (Confira o vídeo a seguir para um resumo rápido da ideia.)

Um dos testes propostos por Lineweaver e Chopra para sua hipótese envolve justamente a busca por sinais de vida em Marte. “Se encontrarmos evidência de vida presente em Marte ou Vênus que teve uma origem independente da vida terrestre, então isso seria evidência contra tanto a hipótese do gargalo de Gaia quanto a do gargalo da emergência [que sugere que as reações químicas prebióticas que dão origem à vida são raras]”, escreveram os autores, em seu artigo recém-publicado no periódico “Astrobiology”.

Ao longo do último fim de semana, Lineweaver travou um longo (e fascinante) debate por e-mail com o Mensageiro Sideral sobre o gargalo de Gaia e suas implicações, as perspectivas para a busca por vida em Marte e em Europa, o que as evidências sugerem sobre a existência de inteligência extraterrestre e as expectativas que podemos ter (realistas ou não) do comportamento de civilizações altamente tecnológicas pelo Universo afora. Para quem se interessou pela discussão iniciada por aqui na segunda-feira, é um prato cheio. Confira.

O astrobiólogo australiano Charley Lineweaver (Crédito: ANU)
O astrobiólogo australiano Charley Lineweaver, proponente da hipótese do gargalo de Gaia (Crédito: ANU)

Mensageiro Sideral – Eu sei que você abordou no artigo uma das possíveis críticas à hipótese do gargalo de Gaia, a de que talvez o Universo estivesse de fato cheio de vida em toda parte, e nós apenas não a tenhamos detectado (mesmo quando se trata de vida inteligente, baseada em princípios da SETI, está claro que não procuramos o suficiente ainda para fazer qualquer afirmação conclusiva exceto a de que “não parece haver qualquer civilização nas proximidades, num segmento muito pequeno da galáxia, que esteja nos enviando sinais de rádio”). Mas gostaria de submeter a ideia de que mesmo ambientes habitáveis duráveis no Universo provavelmente não são raros, dado que, por tudo que sabemos, Europa, em nosso próprio Sistema Solar, pode muito bem ter sido um lugar habitável por vários bilhões de anos, provavelmente ainda é e provavelmente ainda será por um longo tempo no futuro. Além disso, podemos entender sua provável habitabilidade sem precisar de qualquer regulação “de Gaia”. Como você responde a isso?

Charley Lineweaver – Você diz “está claro que não procuramos o suficiente ainda”. Eu não acho que isso esteja de modo algum claro, uma vez que não há razão para acreditar que uma civilização tecnológica capaz de construir espaçonaves permaneceria em torno de sua estrela de origem. Em outras palavras, uma vez que você tem uma civilização tecnológica, ela irá se espalhar e colonizar. Pelo menos essa é uma premissa comum que muitos consideram plausível.

Sobre Europa, a água lá está sob muito gelo e existe em Europa (e em outras luas) por causa daquele gelo. Há muitos outros oceanos sob o gelo no Sistema Solar e tenho certeza de que eles são comuns no Universo. Entretanto, ao mesmo tempo em que o gelo protege o oceano e permite que ele exista, ele o isola da atmosfera e dos fótons [partículas de luz]… Uma importante questão em aberto é quão efetivo é esse isolamento e se uma conexão com a atmosfera é necessária para o ciclo de nutrientes ou para as fontes de energia redox [química baseada em óxido-redução, que permite o uso e o armazenamento de energia para a vida] ou para os fótons que a vida precisa para sobreviver. Há um debate em andamento sobre se os ricos ecossistemas nas fossas hidrotermais na Terra poderiam existir sem a chuva constante de compostos orgânicos da zona fótica [região superior do oceano em que a luz é capaz de penetrar].

Eu argumentaria que é muito difícil… talvez até impossível para um ambiente ser estável e habitável por longos períodos de tempo. Isso seria particularmente verdadeiro no período formativo de um planeta ou lua, o primeiro bilhão de anos. Por exemplo, talvez a vida tenha emergido no oceano de Europa logo após a lua ter se formado. Nas primeiras poucas centenas de milhões de anos após sua formação, é possível que o oceano europano não fosse coberto por gelo ou talvez o gelo fosse muito fino. De qualquer modo, o bombardeio pesado primordial [de asteroides, mais comum nessa fase de formação do Sistema Solar] teria perfurado buracos no gelo o tempo todo e isso pode ter permitido o ciclo de nutrientes e a química redox. Mas o bombardeio diminuiu e Europa resfriou.

Se alguma vida que calhou de evoluir em Europa descobriu como concentrar sais ou produzir um pigmento escuro, isso poderia promover derretimento ou aquecimento em alguns lugares na superfície que poderiam (conforme Europa esfriou e o gelo ficou cada vez mais espesso) manter uma conexão química com a atmosfera. Eu não acho que saibamos muito sobre a evolução primordial de Europa (ou das outras luas grandes onde pensamos haver oceanos subsuperficiais), então estou inventando essa história. Mas nossa hipótese de regulação de Gaia sugeriria que as condições necessárias para a origem e a manutenção da vida não são necessariamente as mesmas e provavelmente não seriam estáveis.

Eu concordaria que o oceano europano e as temperaturas no fundo dele são agora estáveis. Se a vida pode emergir nessas condições e persistir, ainda não está de modo algum claro.

Mensageiro Sideral – E quanto aos extremófilos da Terra, seres capazes de viver nas condições mais inóspitas, como sob intensa radiação ou muito calor? Eles já não provaram que a vida é mais resiliente à extinção do que fomos levados a acreditar antes que os tivéssemos encontrado?

Lineweaver – Sim, acho que sim. Particularmente os mais profundos, a 1 ou 2 km de profundidade.

Mensageiro Sideral – E esses extremófilos não estão dizendo que, se já houve vida em Marte, ainda deveria haver alguma vida lá, talvez no subsolo, deixando-os apenas com o gargalo da emergência novamente?

Lineweaver – Bem, há possivelmente muitas camadas nesse “grande filtro”. Quais são mais importantes é difícil de dizer. A nossa nova camada, o gargalo de Gaia, não é sabotada pela resistência dos extremófilos. Acho que a ideia de que, quando a vida surge, ela é frágil é o modo mais plausível de pensar sobre os princípios da vida. Para se tornar “dura na queda”, a vida precisa evoluir, e isso leva tempo.

Mensageiro Sideral – Uma outra pergunta: quando eu digo que ainda não procuramos o suficiente, não me refiro apenas a SETI, mas também a buscas biológicas em nosso Sistema Solar. A única busca biológica em Marte foi feita pelas sondas Viking, em apenas dois sítios, seus resultados foram controversos e não disseram nada a respeito de ambientes subsuperficiais. Então, pelo menos para mim, parece que é cedo para dizer que não há vida neste momento em Marte. Das luas geladas, podemos dizer ainda menos. Então, quando o assunto é a busca por vida extraterrestre, ainda estamos basicamente na estaca zero. E mesmo se você olha pelo ângulo da busca por vida inteligente, pode ser que existam artefatos ligados a espaçonaves [extraterrestres] no Sistema Solar, e nós apenas não os encontramos, ou talvez viagens interestelares não sejam viáveis afinal de forma que a colonização nunca se torna a regra na galáxia, ou talvez viagens interestelares sejam praticáveis, e a maior parte da galáxia esteja colonizada, mas inteligências extraterrestres não se intrometem em sistemas com vida nativa (e o Sistema Solar se tornou vivo bem cedo em sua história)! Com tantas respostas alternativas, acho que é cedo demais para dizer que podemos apostar que inteligência extraterrestre é rara, para não falar em vida microbiológica persistente. Você não concorda?

Lineweaver – Há um debate interessante sobre a questão: se há vida num planeta, ela vai dominar o planeta e se tornar tremendamente óbvia? Ou talvez a vida possa permanecer no subsolo, levando uma existência não-óbvia? Não temos certeza… mas um pode provavelmente dizer com alguma confiança que vida em outras partes do Sistema Solar não é óbvia.

Sobre vida presente em Marte, eu concordo se você estiver se referindo a vida microbiana subsuperficial. Com algumas poucas sondas… especialmente aquelas que podem cavar e perfurar, logo saberemos. E “logo” significa nos próximos 5 a 15 anos.

Você diz: “Das luas geladas, podemos dizer ainda menos. Então, quando o assunto é a busca por vida extraterrestre, ainda estamos basicamente na estaca zero.” Talvez… Não vou contrariar isso.

Sobre a viabilidade de viagem interestelar, não vejo razão para ser inviável. Você não viu o filme “Interestelar”? Se permanecermos vivos, nossos futuros descendentes (ou seja, robôs inteligentes) certamente vão viajar por toda a galáxia. E não é necessário que isso se torne a regra… tudo que você precisa é de uma [ocorrência].

Há muitas estranhas e maravilhosas ideias para explicar o paradoxo de Fermi. Elas estão listadas no livro de Stephen Webb, “Where is Everybody? 50 solutions to Fermi’s paradox”. O gargalo de Gaia não está listado entre elas.

Martin Rees [astrônomo real britânico] me disse uns meses atrás que Webb estava para lançar uma nova edição… desta vez com 70 soluções. Martin escreveu o prefácio para ela. Como cientistas, nosso trabalho é tentar bolar hipóteses e avaliá-las. O gargalo de Gaia é uma nova hipótese que é, nós acreditamos, mais consistente com o que sabemos sobre a fragilidade da vida primordial num planeta jovem. Desde o artigo de 1998 de Maher e Stevenson sobre a frustração da vida por impactos, a maioria dos astrobiólogos tem presumido que, uma vez que a vida começa, ela persiste.

E com respeito a vida inteligente, eu acho que as evidências que de fato temos para avaliar a hipótese sugerem fortemente que ela não existe. Tente dar um google em “The Planet of the Apes Fallacy” para ver o que eu quero dizer. Com respeito a vida microbiana persistente, não tenho tanta certeza. Mas nossa ideia pode ser testada, como sugerimos no artigo.

Mensageiro Sideral – Fui ler sobre a “falácia do Planeta dos Macacos” [referência ao clássico da ficção científica, é a falsa ideia de que, se a humanidade fosse de algum modo destruída, algum outro animal necessariamente evoluiria para se tornar inteligente e tomar nosso antigo lugar, como se houvesse um nicho ecológico obrigatório para vida inteligente que a evolução sempre busca ocupar]. E concordo com você que as evidências apoiam a noção de que a inteligência não é um traço obrigatório da evolução, de forma que não podemos concluir com facilidade que de um planeta com vida sempre terminaremos com uma espécie inteligente.

Entretanto, também não podemos ignorar o fato de que grandes biosferas como a nossa irão, como você aponta, proceder com incontáveis “experimentos” evolutivos e é obviamente possível que um desses siga uma rota que eventualmente leve à inteligência. Então, minha opinião sobre isso é que não há mesmo um nicho para inteligência. Contudo, há um nicho para socialização — espécies sociais apareceram diversas vezes, em diferentes linhagens da árvore da vida, de forma que parece haver alguma convergência quanto a isso. E alguém poderia argumentar que a socialização gera a pressão de seleção para a inteligência, já que ser mais inteligente provavelmente ofereceria vantagens extra em contextos sociais. O quanto isso precisa ir adiante até que entremos na estrada para uma sociedade tecnológica, e com que frequência isso acontece numa biosfera, ainda estamos por compreender.

Vamos imaginar por um momento que sejam precisos 1 bilhão de “experimentos” naturais a gerar criaturas sociais até que um deles leve a inteligência superior. Considerando que cada biosfera vai fazer vários deles, essas chances são bem boas, numa galáxia com 200 bilhões de estrelas. Então, eu não vejo como um problema o fato de que não há um nicho claro para a inteligência. Isso é verdade, mas também é verdade que alguma pressão evolutiva teve de acontecer para nos levar dos australopitecos até o Homo sapiens.

O que eu acho que é antiquada é a ideia de que a vida necessariamente vá se espalhar por toda a galáxia se a inteligência aparecer. Tendências de redução do crescimento populacional na Terra, acompanhadas por preocupações crescentes acerca de impactos ambientais, nos mostram que não é obrigatório sempre expandir, expandir e expandir. Talvez sociedades avançadas se tornem tão sustentáveis que não colonizam nada além de seu próprio sistema solar, ou no máximo seus vizinhos estelares mais próximos. E isso é especialmente verdadeiro se terminarmos com descendentes robóticos, em vez de entidades biológicas. Robôs não têm nenhum instinto reprodutivo! Não há necessidade de colonização! Eles poderiam simplesmente viajar pela galáxia, colhendo conhecimento! E um pequeno robô alienígena poderia estar no nosso Sistema Solar agora, e poderia ser tão pequeno e discreto que nem notaríamos sua presença!

Meu ponto é: eu acredito fortemente que não sabemos o suficiente para fazer afirmações audaciosas sobre quão frequente ou infrequente vida ou inteligência deveriam ser. Não há dados suficientes!

Entretanto, fiquei fascinado pela hipótese do gargalo de Gaia, porque ela ataca o problema de a vida ser tão óbvia na Terra e, na melhor das hipóteses, ser muito sutil em todo o resto do Sistema Solar.

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P.S.: A quem possa interessar, o Mensageiro Sideral estará nesta quinta-feira (28), às 15h30, na Campus Party, no Anhembi, em São Paulo, com uma apresentação sobre o passado e o futuro da exploração de Marte. No sábado (dia 30), mesmo horário, participo, no mesmo evento, de um debate sobre o impacto de Star Wars na indústria cinematográfica.

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