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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Júpiter e Saturno ajudaram a semear a Terra com os ingredientes da vida, diz estudo

Por Salvador Nogueira

Nos primórdios da formação do Sistema Solar, Júpiter e Saturno tiveram um papel fundamental para semear a Terra com água e compostos orgânicos — os principais ingredientes para o surgimento da vida. É o que sugere uma série de simulações computacionais realizadas por Kevin Grazier, cientista do JPL (Laboratório de Propulsão a Jato), da Nasa.

O estudo derruba a velha tese de que Júpiter serve à Terra como uma espécie de escudo contra o impacto de asteroides e cometas. Na verdade, o maior planeta do Sistema Solar — em concerto com seu vizinho gigante, Saturno — faz mais por induzir objetos distantes a entrarem em possível rota de colisão com a Terra do que efetivamente evitar impactos.

Mas isso não quer dizer que Júpiter e Saturno sejam necessariamente vilões. Afinal, ao produzir colisões entre objetos do Sistema Solar exterior e os mundos mais próximos do Sol, os dois planetas levaram um grande número de cometas a semear nosso planeta com compostos voláteis — sobretudo água — e moléculas orgânicas.

Talvez por conta disso a Terra tenha logo de cara reunido as condições para o surgimento e a evolução da vida — ainda que impactos posteriores tenham causado extinções em massa, como a que aconteceu há 65 milhões de anos, quando os dinossauros bateram as botas.

Grazier simulou os efeitos gravitacionais de Júpiter, Saturno, Urano e Netuno sobre a evolução de dezenas de milhares de pequenos objetos originalmente localizados na região dos planetas gigantes. Cada simulação acompanhou esse processo por 100 milhões de anos, dos 4,6 bilhões que tem o Sistema Solar.

Algumas coisas surpreenderam: primeiro, caiu o mito de que Júpiter age como um escudo efetivo contra colisões frequentes. Muito pelo contrário. Sua presença aumenta o risco de impactos. Segundo, os resultados mostraram que Saturno também tem um papel importante no envio desses objetos para a região da órbita da Terra. “Para usar uma metáfora esportiva, Júpiter é quem marca o gol, mas Saturno faz a assistência”, escreveu Grazier em seu artigo, publicado na edição de janeiro da revista “Astrobiology”.

Agora, qual é a consequência disso para a existência de vida em outros sistemas planetários? Sabemos a essa altura que planetas gigantes gasosos são comuns, mas menos comuns que mundos rochosos como a Terra. Em muitos sistemas, teremos mundos terrestres, mas não teremos mundos jovianos.

Está claro que Júpiter e Saturno tiveram um papel importante trazendo compostos essenciais ao surgimento da vida para o nosso planeta (na forma de nada simpáticas colisões de cometas). Mas não sabemos se esses mesmos compostos já não faziam parte da “receita original” da Terra, durante sua formação, 4,6 bilhões de anos atrás. (A presença de grandes quantidades de água no manto terrestre, constatada recentemente, parece sugerir que esse pode muito bem ser o caso.)

Um exoplaneta rochoso que tenha se formado em circunstâncias similares às da Terra provavelmente também já viria com seu próprio suprimento de água. Mas, sem um equivalente de Júpiter e outro de Saturno por perto, ele talvez não recebesse tantos impactos de cometas. Por um lado, é possível que, por conta disso, faltassem alguns dos ingredientes essenciais para o surgimento da vida. Em compensação, podemos imaginar que a quantidade de impactos capazes de extinguir qualquer vida que surgisse seria bem menor.

No fim das contas, a mensagem mais importante do estudo é mostrar como a evolução do nosso Sistema Solar dependeu fortemente de sua configuração original. Qualquer alteração (e Grazier rodou simulações alternativas, com Júpiter, mas sem Saturno, e vice-versa) levaria a um outro desfecho. Moral da história: cada sistema planetário evolui a seu próprio modo, de forma que teremos de tomar muito cuidado para não concluir apressadamente sobre a habitabilidade ou não de cada um dos planetas similares à Terra descobertos em torno de outras estrelas. Em essência, cada caso será um caso.

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