Mensageiro Sideral

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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Marte já teve atmosfera rica em oxigênio, diz Nasa

Por Salvador Nogueira

A cada nova descoberta, o passado de Marte faz mais por lembrar um certo mundo azul velho conhecido nosso. A última veio da cratera Gale, onde trabalha o jipe Curiosity. Ele encontrou por lá evidências químicas de que o planeta vermelho já teve altas concentrações de oxigênio molecular em sua atmosfera. Isso mesmo, o tal O2 que respiramos e que alimenta nosso metabolismo altamente energético. Não duvide se algum dia descobrirem que o ar marciano já foi respirável em tempos remotos.

A descoberta, anunciada pela Nasa e publicada no periódico “Geophysical Research Letters”, teve a liderança de Nina Lanza, do Laboratório Nacional de Los Alamos, no Novo México. Usando o instrumento ChemCam embarcado no jipe, foi possível detectar a presença de óxidos de manganês em algumas fissuras de rochas. O intrigante é que essa composição mineral só seria esperada num ambiente com presença abundante de água e alguma substância altamente oxidante. Oxigênio molecular seria o candidato mais provável.

Que Marte já teve oxidantes na atmosfera, não é novidade. A própria aparência enferrujada de sua superfície, de fato oxidada, denuncia isso. Mas uma pequena quantidade bastaria para deixá-lo avermelhado. O mesmo, contudo, não se pode dizer desses óxidos de manganês. Eles exigiriam uma concentração muito maior. Ou seja, provavelmente já houve muito oxigênio na atmosfera marciana.

DE ONDE ELE VEIO?

Na Terra, sabemos muitíssimo bem de onde sai o oxigênio que respiramos — contamos com as cianobactérias e as plantas, capazes de fotossíntese, para fabricá-lo e reabastecê-lo. Em Marte, no entanto, postular isso a essa altura seria loucura — embora já saibamos que o planeta vermelho devia ter condições bem amenas para a vida em seu passado remoto, não há no momento nenhuma evidência de atividade biológica que sustente essa hipótese.

Em compensação, sabemos que Marte sofreu um processo de ressecamento que o transformou no deserto gélido que é hoje. Há também evidências seguras, confirmadas por sondas recentes como a Maven, de como isso se deu.

Primeiro, Marte perdeu seu campo magnético, coisa de 4 bilhões de anos atrás. Sem ele, foi-se a proteção natural que a atmosfera do planeta tinha contra o vento solar. As partículas emanadas do Sol passarama erodir a atmosfera, o efeito estufa diminuiu e a água se tornou instável na superfície. Parte dela congelou (e está até hoje no subsolo). Outra parte evaporou e, no ar, teve suas moléculas atingidas pelos raios ultravioleta solares.

Água, lembre-se, é duas parte de hidrogênio e uma parte de oxigênio. Quando radiação UV bate nela, a molécula se quebra. O hidrogênio, muito mais leve, consegue escapar com facilidade da débil gravidade marciana e vai-se embora para o espaço. O oxigênio fica para trás. Voilà, nosso oxidante para o manganês. Ou, pelo menos, é nisso que Nina Lanza e seus colegas estão apostando para explicar a detecção do Curiosity.

De toda forma, a descoberta é fascinante. Na Terra, o aumento de oxigênio molecular na atmosfera, causado pela própria vida, foi ao mesmo tempo uma catástrofe ambiental sem precedentes (uma vez que, naquela época, a maioria dos micro-organismos tinha uma terrível alergia a oxigênio) e um advento maravilhoso, o provável gatilho para o surgimento de seres multicelulares e complexos. (Seria uma versão “ultimate” do famoso “o que não mata fortalece”?)

Qual terá sido seu papel para a vida marciana, se é que algum dia houve vida em Marte? Mistério da capa preta, como diz a minha avó.

De todo modo, a descoberta também é um alerta para os mais animados com a descoberta de evidências de vida em planetas fora do Sistema Solar — como o Mensageiro Sideral. Já não podemos tratar a presença de oxigênio molecular na atmosfera de um exoplaneta como sintoma claro de fotossíntese. Pode ser que, a exemplo de Marte, ele esteja só vendo sua água subir no telhado.

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