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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Cientistas da Nasa sugerem criar escudo magnético para tornar Marte mais amigável à vida

Por Salvador Nogueira

Com a cabeça na segunda metade do século 21, um grupo de cientistas da Nasa acaba de apresentar uma ideia audaciosa: criar um escudo magnético para proteger — e então adensar — a atmosfera de Marte. Em princípio, isso poderia tornar o planeta vermelho mais quente e, quiçá, habitável — como um dia ele já foi e no futuro distante tende a voltar a ser.

Marte, no passado remoto, já teve um campo magnético. E então, entre 4,2 bilhões e 3,7 bilhões de anos atrás, ele foi desligado, provavelmente por conta do rápido resfriamento interno do planeta, que tem pouco mais da metade do diâmetro da Terra. Com isso, o vento solar passou a agir desimpedido sobre sua atmosfera, paulatinamente destruindo-a. Hoje, ela tem apenas um centésimo da densidade da nossa, o que resulta em um efeito estufa muito modesto. De acordo com os cientistas, essa provavelmente foi a principal razão para Marte ter se convertido de um mundo hospitaleiro, rico em oceanos, rios e lagos, num deserto seco e frio.

Acredita-se que, no momento, a atmosfera de Marte esteja em equilíbrio com o vento solar. Ela continua sendo erodida (a sonda Maven, da Nasa, já mediu a taxa de perda atmosférica atual em pelo menos um quilo por segundo), mas acredita-se que outros mecanismos, como a sublimação do gelo de dióxido de carbono das calotas polares, estejam reabastecendo a atmosfera e mantendo-a no mesmo patamar de densidade.

Agora, o que aconteceria se pudéssemos de algum modo restituir certa proteção magnética a Marte, rebatendo as partículas carregadas — prótons e elétrons de alta energia — para longe da atmosfera, do mesmo modo que a magnetosfera terrestre faz, protegendo nosso próprio invólucro de ar?

Outro dia, no espaço de comentários do blog, um leitor me perguntou se seria possível de alguma forma reativar o campo magnético de Marte. Eu respondi peremptoriamente que não. E por isso exatamente que eu não sou Jim Green, diretor de ciência planetária da Nasa. Mas, por sorte, Jim Green é Jim Green, e ele apresentou uma ideia fabulosa a respeito disso num evento interno da agência espacial americana, o Planetary Science Vision 2050 Workshop.

Brincadeiras à parte, o que eu respondi nos comentários naquela ocasião continua sendo tão verdade quanto antes — até onde entendemos a estrutura interna dos planetas, não haveria o que fazer para religar a magnetosfera própria de Marte. Mas o que Green e seus colegas propuseram é a segunda melhor coisa depois disso — dispor um escudo magnético artificial entre o planeta e o Sol.

A ideia seria colocar um satélite num lugar especial do espaço em que a gravidade do Sol e de Marte se contrabalançam perfeitamente, um ponto que os cientistas chamam afetuosamente de L1 (ou ponto lagrangiano 1, em homenagem a Joseph Lagrange, o matemático que calculou esses chamados pontos de libração pela primeira vez).

Lá, uma espaçonave poderia permanecer o tempo todo no caminho entre o Sol e Marte, a cerca de 1,1 milhão de km do planeta. E, com o equipamento apropriado (basicamente um ímã supercondutor caprichado), ela poderia gerar um campo magnético cuja cauda se estendesse até o planeta vermelho, efetivamente conferindo proteção contra as partículas do vento solar.

Concepção artística do campo magnético artificial que poderia proteger Marte (Crédito: Nasa)

AS CONSEQUÊNCIAS
Valeria a pena o esforço? Bem, para começo de conversa, nesse caso, a intensidade do campo magnético gerado é um parâmetro. Os pesquisadores liderados por Green realizaram simulações com diferentes forças, indo de 5 nanoteslas (medidos a uma distância de um raio terrestre do satélite) a 500 mil nanoteslas, subindo uma ordem de grandeza de cada vez. O primeiro caso (5 nT) não faz nem cosquinha em Marte. Mas cada subida na escala melhora o desempenho significativamente, conferindo crescente proteção ao planeta vermelho. A partir de 50.000 nT, já ficam bem bom. E o último caso (500.000 nT) praticamente zera a erosão atmosférica pelo vento solar. Para efeito de comparação, na apresentação, Green indica a intensidade do campo magnético da Terra a um raio terrestre do centro (ou seja, na superfície): 31.100 nT.

O passo seguinte então foi rodar modelos climáticos de Marte levando em conta a possível mudança de equilíbrio da atmosfera com o campo magnético artificial. Lembre-se: hoje o planeta vermelho perde atmosfera para o vento solar, e ganha atmosfera por outros processos internos. Se cortarmos pelo menos parte do vento solar, a atmosfera ganhará mais do que perde e acabará atingindo um novo estado de equilíbrio, mais densa.

Quão mais densa e com quais consequências? Para tentar responder a isso, uma simulação climática 3D de Marte foi rodada por cinco anos em diferentes níveis de pressão atmosférica à superfície: 10, 50, 100, 250 e 500 milibares. Hoje ela tem em média 6,5 mbar, aproximadamente. (Para efeito de comparação, a da Terra tem 1.013 mbar, ao nível do mar.)

E o que eles descobriram com isso foi… estranho. A temperatura subiu, mas não tanto quanto eles esperavam — apenas 5 graus Celsius, na média. Mas um efeito curioso de desequilíbrio e instabilidade surge em algum momento entre os 50 milibares e os 100 milibares que torna o equador mais quente (boa!), mas leva ao colapso da atmosfera na região das calotas polares, aumentando a quantidade de dióxido de carbono congelado nelas! Outro efeito identificado no modelo é o aumento de poeira na atmosfera — esperado, com o aumento da densidade.

“Ainda não é o que Mark Watney enfrentou”, destacou Green em sua apresentação, citando o filme “Perdido em Marte”, em que um astronauta fica sozinho no planeta vermelho depois de encarar uma tempestade de areia muito mais intensa do que seria possível na realidade.

Os resultados de forma geral sugerem, de acordo com diretor da Nasa, que ainda faltam elementos no modelo climático para que ele seja suficientemente realista. Exemplo: ele atualmente não inclui os potenciais efeitos de nuvens de água (algo que ainda não está presente, mas seria potencialmente importante num Marte com atmosfera mais densa, uma vez que há muito gelo de água sob o solo marciano).

Contudo, ter uma atmosfera mais densa já seria um ganho considerável para a habitabilidade marciana. Vale lembrar que mesmo nas condições atuais há lugares no equador marciano em que as temperaturas frequentemente sobem acima de 0 grau Celsius. Ali, o que impede a água de se manter estável em estado líquido é a baixa pressão atmosférica.

Além disso, o campo magnético artificial reduziria muito da radiação de alta energia que incidiria sobre Marte — uma boa notícia para quem pretende ir morar lá na segunda metade do século 21.

Legal. Mas um detalhe que ficou de fora até agora é: temos a tecnologia para criar esse satélite capaz de gerar uma magnetosfera artificial para o planeta vermelho?

“Nós precisamos no momento postular como gerar campos magnéticos como esse”, diz Green. “Atualmente nós podemos lançar e colocar no L1 um sistema que pode gerar 2.000 gauss [ou 0,2 tesla, o que pode parecer muito, mas isso é na fonte; a intensidade do campo magnético cai proporcionalmente ao cubo da distância]. Então, pode ser concebível que possamos chegar aos níveis maiores forças de campos necessárias para fornecer essa escudagem. Também deveremos ser capazes de modificar a direção do campo magnético para que ele sempre empurre o vento solar para longe, sem reconexão na região frontal da magnetosfera.”

Tem todo jeito de que, com algumas décadas de pesquisa e desenvolvimento, pode dar pé.

ISSO É TERRAFORMAÇÃO?
A ideia pode soar muito parecida com propostas de terraformação — ou seja, tentativas de transformar artificialmente o ambiente de Marte para torná-lo mais parecido com a Terra ou mais amigável a formas de vida terrestres.

Jim Green fez questão de enfatizar que esse não seria o caso, porque não há alteração direta no ambiente marciano e porque os efeitos seriam exatamente os mesmos esperados para daqui a 700 milhões de anos, quando o nível de luminosidade solar — que tem crescido paulatinamente desde o nascimento do Sistema Solar — for capaz de acelerar a sublimação do gelo nas calotas polares marcianas e adensar a atmosfera naturalmente. (Incidentalmente, o mesmo processo tornará a Terra um inferno similar a Vênus mais ou menos nessa mesma época.)

“Pode ser daqui a 700 milhões de anos, ou pode ser mais cedo”, defende o cientista da Nasa. “Como eu disse antes, o Sistema Solar é nosso. Vamos tomá-lo. E isso, claro, inclui Marte. E, para humanos explorarem Marte, precisaremos de um ambiente melhor.”

Depois dessa frase, um membro da plateia perguntou a Green se “vamos tomá-lo” não soava imperialista demais e se ele estava dizendo isso como membro da espécie humana ou como representante do governo dos Estados Unidos. “Como humano! Espécie humana! Com toda a diversidade que temos, pode apostar!”

E você, o que acha? Devemos moldar Marte aos nossos desejos? A ideia certamente cai bem com os planos mais arrojados de colonização marciana para as próximas décadas. E mostram como a engenhosidade humana pode ter efeitos poderosos e rápidos sobre planetas inteiros. Aqui na Terra, a lição está sendo aprendida a duras penas.

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