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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Rede de astrônomos descobre duas primeiras chuvas de meteoros ‘brasileiras’

Por Salvador Nogueira

Após cerca de três anos de trabalho e a análise de mais de 86 mil registros no céu, um grupo de astrônomos amadores descobriu duas novas chuvas de meteoros anuais — as primeiras descobertas do gênero por pesquisadores brasileiros até hoje.

Os nomes, como de costume, são inspirados pelo radiante, o local da abóbada celeste de onde parecem partir os meteoros. Os Épsilon Gruídeos, emanam de uma das estrelas da constelação do Grou, e têm seu auge ao redor do dia 11 de junho.

Já os Caelídeos de agosto remetem à constelação do Cinzel, e entram na época de máxima atividade aproximadamente no dia 5 daquele mês. Ambas as constelações estão localizadas no hemisfério Sul celeste.

A descoberta foi feita pela Bramon, acrônimo para Brazilian Meteor Observation Network, ou Rede Brasileira de Observação de Meteoros. Os dois radiantes foram comunicados no último dia 9 à União Astronômica Internacional, que validou os resultados na segunda-feira (20) e os publicou na internet.

Agora, com as informações disponíveis publicamente, outros pesquisadores espalhados pelo mundo podem monitorar as chuvas, confirmá-las e tentar descobrir mais sobre elas.

“Conseguimos atingir com sucesso o primeiro objetivo da rede”, diz Carlos Augusto Di Pietro, um dos coordenadores da rede, que conta no momento com 82 estações, distribuídas em 19 estados. Elas são mantidas de forma voluntária pelos participantes, e novas estações continuam a ser adicionadas ao grupo.

A ideia, com isso, é ter uma boa cobertura do céu brasileiro e assim poder identificar novas chuvas — sobretudo porque o lado austral da abóbada celeste ainda é largamente inexplorado.

MATEMÁTICA COMPLICADA
A facilidade de observar uma chuva de meteoros não pode ser confundida com a enorme dificuldade que é descobrir uma.

Isso porque a descoberta requer, a partir da observação de números expressivos das famosas “estrelas cadentes”, identificar aquelas que tinham órbitas similares entre si, antes de adentrar a atmosfera da Terra e queimar.

A Bramon, assim como outras redes espalhadas pelo mundo, faz isso tentando registrar os mesmos meteoros de diferentes pontos de vista — daí a importância de ter um grande número de estações espalhadas pelo país.

Uma vez que o mesmo meteoro seja identificado em duas ou mais câmeras, é possível fazer uma triangulação para tentar determinar exatamente de onde ele veio no Sistema Solar.

A matemática envolvida não é trivial, e depois de tudo isso ainda é preciso ver se algumas órbitas se apresentam em agrupamentos, indicando que se trata mesmo de uma chuva, e não de um evento isolado.

Esse trabalho foi iniciado por Carlos di Pietro, em São Paulo, e Marcelo Zurita, em João Pessoa (PB). Mais adiante, Lauriston Trindade, em Maranguape (CE), passou a trabalhar nos dados, a fim de demonstrar matematicamente as correlações.

“Foram centenas de cálculos”, diz Trindade. “Partimos inicialmente de um banco de dados com mais de 86 mil registros, mas nossa matéria-prima são órbitas. Reunimos 4.205 órbitas trabalháveis. Revisei todas em busca dos agrupamentos. Eu testava, definia um potencial radiante e o Carlos Di Pietro conferia meus cálculos.”

DE ONDE VÊM?
Desse processo, sobraram dois grupos inequivocamente aparentados: um com sete órbitas e outro com dez órbitas. Eram objetos que vinham da mesma direção aproximada, na mesma época, só que em anos diferentes.

Sinal de que deviam ser detritos deixados no espaço por algum outro corpo. Toda vez que a Terra atravessa a região, em sua órbita anual ao redor do Sol, novos meteoros queimam na atmosfera.

A pergunta é: que objeto maior deixou esses pequenos fragmentos que queimam anualmente nas chuvas nacionais? Essa é a descoberta que o pessoal da Bramon quer fazer a seguir.

“A partir de agora iremos elaborar um plano de busca por esses objetos”, diz Di Pietro. O esforço aí exigirá buscas telescópicas, que serão feitas pelo Sonear (sigla inglesa para Observatório Austral para Pesquisa de Asteroides Proximos à Terra).

Parceiro da Bramon, o Sonear é também mantido com recursos particulares e está instalado em Oliveira (MG). Capitaneado pelos astrônomos amadores Cristóvão Jacques, João Ribeiro de Barros e Eduardo Pimentel, ele se tornou nos últimos anos o mais produtivo observatório caçador de asteroides no hemisfério Sul.

Buscas preliminares parecem associar uma das chuvas a um cometa que teve seu último periélio (aproximação máxima do Sol) em 1941. Mas será preciso investigar mais para confirmar a ligação.

De toda forma, a partir de agora, o Brasil já figura oficialmente na lista dos países descobridores de chuvas de meteoro.

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