Mensageiro Sideral

De onde viemos, onde estamos e para onde vamos

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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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No Universo, tem para todo mundo

Por Salvador Nogueira

A coisa mais bonita que o estudo dos planetas fora do Sistema Solar está mostrando é a incrível criatividade da natureza. Existem incontáveis arquiteturas possíveis para um sistema planetário, e algumas delas são tão radicalmente diferentes que ousamos imaginar que a nossa família solar possa ser algo como uma raridade.

Nada, contudo, poderia estar mais longe da verdade. Com efeito, astrônomos têm estudado um sistema planetário vizinho que lembra muito o nosso próprio — só que em sua juventude.

Estamos falando de Epsilon Eridani, uma estrela só um cadinho menor que o Sol (80% da massa do Sol, tipo K) a 10,5 anos-luz daqui. Sua idade é estimada em algo ao redor de 500 milhões de anos, contra 4,6 bilhões do Sol.

Ela abriga um dos exoplanetas mais antigos conhecidos. Epsilon Eridani b (também chamado de AEgir pela União Astronômica Internacional) foi descoberto em 2000 e lembra muito o nosso bom e velho Júpiter. AEgir completa uma volta em torno da estrela a cada 7 anos, aproximadamente. (Júpiter, por aqui, leva 12 anos para contornar o Sol.)

O que torna esse sistema ainda mais reminiscente do nosso, entretanto, é a detecção de um cinturão de asteroides similar ao nosso, circunscrito pela órbita do planeta gigante. A descoberta foi confirmada em um novo estudo, publicado no “Astronomical Journal”.

O trabalho, realizado por astrônomos americanos e alemães, lançou mão do SOFIA, o Observatório Estratosférico para Astronomia de Infravermelho, uma parceria da Nasa com a agência espacial alemã, DLR. Trata-se de um avião Boeing 747SP modificado para carregar um telescópio com abertura de 2,5 metros — similar à do Hubble. A 15 mil metros de altitude, ele não chega a se livrar de toda a interferência que a atmosfera terrestre causa às observações, mas já deixa para trás um bom bocado.

O telescópio móvel SOFIA, embarcado num 747 modificado. (Crédito: Massimo Marengo)

Com ele, os astrônomos puderam determinar que a configuração mais provável para o sistema é que ele tenha três cinturões de pequenos objetos — um interno à órbita de AEgir, outro a uma distância que, no nosso Sistema Solar, seria na faixa de Urano, e um terceiro, mais afastado, feito mais de gelo do que de rocha (a exemplo do nosso cinturão de Kuiper).

Moral da história: eis aí uma arquitetura que lembra muito a do nosso sistema! Nada impede, por exemplo, que existam planetas rochosos, quiçá habitáveis, na região mais interna.

Comparação entre o Sistema Solar e o de Epsilon Eridani, a 10,5 anos-luz da Terra (Crédito: Nasa)

E o mais interessante é que o estudo parece reforçar uma ligação entre a presença de planetas gigantes gasosos como Júpiter e cinturões de detritos próximos. (Muitos modelos de formação planetária inspirados pelo Sistema Solar sugeriam que tanto o tamanho diminuto de Marte quanto a ausência de um planeta onde existe o cinturão de asteroides seriam reflexo da poderosa influência gravitacional joviana na região.)

Talvez cada Júpiter clássico lá fora acabe tendo seu cinturão de asteroides associado. Mas ainda é cedo para cravar. Com efeito, se isso estiver correto, os astrônomos lançam uma predição. Como Epsilon Eridani parece ter dois cinturões de asteroides, eles propõem a existência de um planeta gigante mais externo — até hoje não descoberto — que explique o fenômeno. E também imaginam que deva haver um equivalente do nosso Netuno para delimitar a fronteira do cinturão de Kuiper por lá.

“Nós não o detectamos ainda, mas eu ficaria surpreso se eles não estiverem lá”, disse em nota Massimo Marengo, da Universidade Estadual do Iowa, um dos participantes do estudo. “Vê-los provavelmente exigirá o uso de instrumentação de próxima geração, talvez o Telescópio Espacial James Webb, de 6,5 metros, que deve ser lançado em outubro de 2018.”

O estudo de Epsilon Eridani ajuda a quebrar um pouco o viés de observação gerado pelas técnicas de descoberta de planetas. Elas em geral favorecem a detecção de mundos com órbitas curtas e alta massa, o que nos levou a descobrir muitos sistemas diferentes do nosso — com órbitas compactas e por vezes com os famosos Hot Jupiters, planetas gigantes que orbitam muito próximos a suas estrelas.

A despeito disso ,o fato de encontrarmos um sistema infante a meros 10,5 anos-luz de distância que tem características muito similares às da família solar são evidência convincente de que o contexto de formação da Terra no Universo não seguiu nenhuma rota bizarra ou peculiar. Em meio à maravilhosa variedade do Universo, tem para todo mundo.

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