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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Sapiens compartilhou a Terra com outras espécies humanas no passado recente, diz antropólogo

Por Salvador Nogueira

Apenas 30 mil anos atrás — um piscar de olhos do ponto de vista evolutivo –, falar em espécie humana imediatamente traria uma outra pergunta: qual das espécies humanas? De acordo com o antropólogo evolutivo Walter Neves, da Universidade de São Paulo, a situação atual, em que só há um tipo de humano no planeta inteiro, o Homo sapiens, é um ponto completamente fora da curva na nossa linhagem evolutiva.

“Esse negócio de ter só uma espécie [humana] no planeta — nós, infelizmente — é de 30 mil anos para cá”, disse Neves ao Mensageiro Sideral. “É uma exceção absoluta à evolução da linhagem humana. Há 30 mil anos — só 30 mil, não é nada — nós tínhamos no planeta: Homo sapiens, Homo neanderthalensis, Homo erectus, denisovanos, Homo floresiensis e talvez algum resquício de Homo heidelbergensis. Então, essa coisa de ter só uma espécie humana no planeta no mesmo momento é uma exceção.”

Todas essas espécies humanas do passado tiveram grande sucesso evolutivo, e algumas delas até fazem com que o Homo sapiens não pareça grande coisa. Se por um lado os mais antigos fósseis do ser humano moderno têm cerca de 200 mil anos, por outro lado sabemos que os Homo erectus existiram na Terra por mais de 1 milhão de anos. Ainda temos que comer muito feijão com arroz para quebrar esse recorde de sobrevivência, e há quem duvide que Kim Jong-un e Donald Trump estejam a fim de permitir que a gente chegue lá. (Em tempo: o Mensageiro Sideral é otimista a esse respeito.)

De toda forma, uma dos traços marcantes da evolução humana é o crescente aumento do cérebro e da inteligência. Por que isso aconteceu? Segundo Neves, o resultado não é tão inesperado.

“Existem algumas estruturas que, quando surgem, trazem grande adaptabilidade ao organismo. Um exemplo disso são os olhos. A estrutura ‘olho’ surgiu 40 vezes de forma independente na evolução. Por quê? Oras, você conseguir enxergar ao seu redor tudo que está acontecendo, principalmente a presença de predadores, dá uma grande adaptabilidade”, afirma.

Para o antropológo evolutivo, o surgimento do cérebro mais avantajado e uma inteligência mais sofisticada entram nessa categoria. “Inteligência é uma dessas coisas que traz grande adaptabilidade, não só porque isso permite você viver e manejar contextos sociais mais complexos, manejar tudo que está acontecendo em volta e inclusive arrumar soluções tecnológicas”, diz Neves.

E essa tendência não estaria limitada à linhagem humana, segundo o pesquisador. “Parece que há outros exemplos na linhagem de mamíferos onde você vê também um aumento, não tão exagerado quanto o nosso, do tamanho do cérebro ao longo do tempo. E se forças seletivas ambientais existirem e existir variabilidade na população para isso, provavelmente é um traço que vai ser fixado pela seleção natural. Então eu acho que [a nossa inteligência] não é simplesmente obra de deriva genética. Eu acho que de fato você tem uma seleção para adaptabilidade.”

Isso, é claro, interessa diretamente a quem se pergunta sobre a possibilidade de haver vida inteligente fora da Terra. Mesmo que haja condições adequadas para a evolução biológica em outros planetas, ainda há grande incerteza sobre a probabilidade de evolução de civilizações tecnológicas como a nossa lá fora justamente porque, ao menos na história da Terra, o surgimento de tecnologia sofisticada foi um fenômeno até agora restrito a uma única linhagem — a nossa –, em cerca de 4 bilhões de anos de evolução. Não é decerto algo tão comum quanto “olhos”, mas pode também não ser puramente um acidente evolutivo.

Confira a seguir a entrevista completa com Walter Neves, em que ele comenta, entre outras coisas, a descoberta recente de fósseis ancestrais do Homo sapiens com 300 mil anos em Marrocos e os progressos da compreensão que os antropólogos têm da evolução humana, em mais um episódio da série CONEXÃO SIDERAL.

Para ver episódios anteriores da série, clique aqui.

E uma dica para quem se interessa para valer por este assunto: a reportagem de capa da edição de agosto da revista “Superinteressante”, que já está nas bancas, é justamente sobre a saga da evolução humana. Assinada por este escriba, ela vai além do breve resumo da evolução biológica que abre o best-seller “Sapiens”, do historiador Yuval Harari, e aborda os mais novos achados de fósseis — dentre eles os ancestrais humanos de 300 mil anos de Marrocos –, bem como as mais recentes evidências genéticas — a exemplo do sequenciamento do genoma de neandertais e denisovanos –, para apresentar a noção de que o Homo sapiens não é o resultado de uma simplória escadinha evolutiva, mas sim fruto de um longo processo de miscigenação e convívio de diferentes espécies humanas ao longo dos últimos milhões de anos.

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