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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Um mapa da água na Lua

Por Salvador Nogueira

Uma dupla de pesquisadores nos Estados Unidos acaba de publicar o primeiro mapa global da distribuição de água na superfície lunar — uma ótima desculpa para a gente colocar no contexto apropriado toda essa conversa recente que tem circulado por aí de “água na Lua”.

O mapa revela três coisas: que a água está distribuída por boa parte do globo lunar, que se concentra mais nas altas latitudes e que, claro, não é muita.

A concentração máxima, em altas latitudes, gira ao redor de 500 a 750 partes por milhão. Para que se tenha uma ideia de quanto é isso, é menos do que se encontra na areia dos desertos mais secos da Terra.

Ou seja, não é que existam gotinhas no solo lunar — algo que, por tudo que entendemos de física, não seria possível. O que existe são algumas moléculas de água esparsas impregnadas no regolito — a poeira lunar.

Como elas foram parar lá? A desconfiança no momento é que elas se formem lá, conforme o vento solar, feito principalmente por prótons soltos — que nada mais são que núcleos atômicos de hidrogênio –, se choca com a superfície da Lua, onde tem um bocado de oxigênio fixado no solo. Isso leva à formação de hidroxila (OH) e água (H2O).

Essa parece ser a história para a maior parte dos depósitos identificados, mas também há regiões da Lua em que a água pode ter vindo de dentro do satélite natural, via vulcanismo.

Outro dado interessante revelado pelo estudo, que usou dados colhidos pela sonda indiana Chandrayaan-1 e foi publicado na “Science Advances”, é que a água detectada nas latitudes mais baixas (menos que 60 graus) sofre mudanças de acordo com o avançar do dia lunar — o solo é mais “úmido” (atenção nas aspas) quando o Sol está nascendo por lá e chega a ficar secão por volta do meio-dia lunar, com reduções em até 200 partes por milhão.

Isso sugere uma sazonalidade para formação e destruição de água que pode ser interessante para futura exploração tripulada — ela sugere que os mecanismos que produzem água na Lua seguem ativos hoje e não são produto de algum evento passado que não irá se repetir. Ou seja, sempre haverá mais água, mesmo que a gente recolha alguma para nosso uso. (Claro, não sabemos quanto tempo leva para “reabastecer.)

Os autores do estudo, Ralph Milliken e seu aluno de doutorado Shuai Li, da Universidade Brown, nos EUA, indicam que o trabalho pode ser útil justamente para planejar o futuro da exploração humana do nosso satélite natural. “Agora que temos esses mapas quantitativos mostrando onde a água está e em que quantidades, podemos começar a pensar se vale a pena ou não extraí-la, seja como água potável para astronautas ou para a produção de combustível.”

O resumo da ópera: tudo muito bom, tudo muito interessante, mas sinceramente o Mensageiro Sideral não enxerga isso como um grande facilitador da exploração e da colonização da Lua. Pelo menos para começar. Talvez seja algo importante quando tivermos atividade de mineração lá, que já vai cavocar grandes quantidades de solo lunar de qualquer modo. Mas, para habilitar um primeiro esforço, como uma base tripulada na Lua, uma aposta muito mais segura é ir buscar a água que existe no fundo de crateras escuras nos polos lunares, em concentrações muito maiores que as observadas no solo exposto.

É possível inclusive que um mecanismo de transporte eletromagnético carregue moléculas de água das regiões claras da Lua para o fundo de crateras escuras, onde elas são aprisionadas e impedidas de se desmanchar. Seria uma boa explicação para sua origem, por sinal. Ou seja, as crateras nos polos já seriam o “crème de la crème” da água lunar.

BÔNUS: O Doutor holográfico de “Star Trek: Voyager” canta uma ode à Cassini!

Já estamos no “esquenta” para o dramático fim da missão que explorou Saturno por 13 anos, e uma das homenagens mais interessantes foi a do ator Robert Picardo, embaixador da Planetary Society, cantando “Le Cassini Opera”. Confira no vídeo abaixo.

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