Um mapa da água na Lua

Salvador Nogueira

Uma dupla de pesquisadores nos Estados Unidos acaba de publicar o primeiro mapa global da distribuição de água na superfície lunar — uma ótima desculpa para a gente colocar no contexto apropriado toda essa conversa recente que tem circulado por aí de “água na Lua”.

O mapa revela três coisas: que a água está distribuída por boa parte do globo lunar, que se concentra mais nas altas latitudes e que, claro, não é muita.

A concentração máxima, em altas latitudes, gira ao redor de 500 a 750 partes por milhão. Para que se tenha uma ideia de quanto é isso, é menos do que se encontra na areia dos desertos mais secos da Terra.

Ou seja, não é que existam gotinhas no solo lunar — algo que, por tudo que entendemos de física, não seria possível. O que existe são algumas moléculas de água esparsas impregnadas no regolito — a poeira lunar.

Como elas foram parar lá? A desconfiança no momento é que elas se formem lá, conforme o vento solar, feito principalmente por prótons soltos — que nada mais são que núcleos atômicos de hidrogênio –, se choca com a superfície da Lua, onde tem um bocado de oxigênio fixado no solo. Isso leva à formação de hidroxila (OH) e água (H2O).

Essa parece ser a história para a maior parte dos depósitos identificados, mas também há regiões da Lua em que a água pode ter vindo de dentro do satélite natural, via vulcanismo.

Outro dado interessante revelado pelo estudo, que usou dados colhidos pela sonda indiana Chandrayaan-1 e foi publicado na “Science Advances”, é que a água detectada nas latitudes mais baixas (menos que 60 graus) sofre mudanças de acordo com o avançar do dia lunar — o solo é mais “úmido” (atenção nas aspas) quando o Sol está nascendo por lá e chega a ficar secão por volta do meio-dia lunar, com reduções em até 200 partes por milhão.

Isso sugere uma sazonalidade para formação e destruição de água que pode ser interessante para futura exploração tripulada — ela sugere que os mecanismos que produzem água na Lua seguem ativos hoje e não são produto de algum evento passado que não irá se repetir. Ou seja, sempre haverá mais água, mesmo que a gente recolha alguma para nosso uso. (Claro, não sabemos quanto tempo leva para “reabastecer.)

Os autores do estudo, Ralph Milliken e seu aluno de doutorado Shuai Li, da Universidade Brown, nos EUA, indicam que o trabalho pode ser útil justamente para planejar o futuro da exploração humana do nosso satélite natural. “Agora que temos esses mapas quantitativos mostrando onde a água está e em que quantidades, podemos começar a pensar se vale a pena ou não extraí-la, seja como água potável para astronautas ou para a produção de combustível.”

O resumo da ópera: tudo muito bom, tudo muito interessante, mas sinceramente o Mensageiro Sideral não enxerga isso como um grande facilitador da exploração e da colonização da Lua. Pelo menos para começar. Talvez seja algo importante quando tivermos atividade de mineração lá, que já vai cavocar grandes quantidades de solo lunar de qualquer modo. Mas, para habilitar um primeiro esforço, como uma base tripulada na Lua, uma aposta muito mais segura é ir buscar a água que existe no fundo de crateras escuras nos polos lunares, em concentrações muito maiores que as observadas no solo exposto.

É possível inclusive que um mecanismo de transporte eletromagnético carregue moléculas de água das regiões claras da Lua para o fundo de crateras escuras, onde elas são aprisionadas e impedidas de se desmanchar. Seria uma boa explicação para sua origem, por sinal. Ou seja, as crateras nos polos já seriam o “crème de la crème” da água lunar.

BÔNUS: O Doutor holográfico de “Star Trek: Voyager” canta uma ode à Cassini!

Já estamos no “esquenta” para o dramático fim da missão que explorou Saturno por 13 anos, e uma das homenagens mais interessantes foi a do ator Robert Picardo, embaixador da Planetary Society, cantando “Le Cassini Opera”. Confira no vídeo abaixo.

Acompanhe o Mensageiro Sideral no Facebook, no Twitter e no YouTube

Comentários

  1. se ir para Lua é “basicamente força bruta e matemática”, por que não voltaram á Lua até hoje????
    30 anos sem colonizar o nosso satelite natural, é muito tempo, não acha?

    1. Porque a força bruta é muito cara. Mas vamos voltar em breve, agora que está ficando mais barata. (Agradeça ao Elon Musk e à revolução dos computadores por isso.)

      E sobre o tempo de 30 anos (na verdade mais, entre 1972, última Apollo, e 2017, temos aí 45 anos), não é tão absurdo. Veja você: Cabral chegou ao território brasileiro em 1500. Mas, fora expedições curtas e extrativistas, só vimos o primeiro assentamento permanente — São Vicente — ser fundado em 1532. E veja que estávamos falando de um mesmo planeta, com navios com capacidade de carga bem maior que a das nossas missões lunares até agora: 32 anos. As capitanias hereditárias foram estabelecidas só 34 anos depois da primeira expedição de Cabral, e a primeira capital do Brasil, Salvador, só foi estabelecida em 1549.

      Então, não, não acho nenhum absurdo que leve 50 anos ou mais entre a primeira expedição e o primeiro assentamento na Lua. Lembrando que era muito mais fácil viver no Brasil do que na Lua. 😛

  2. Salva, nota se que no ponto A15 um dos que demonstram maiores níveis de moléculas de água, se encontra na região da linha tropical da lua!
    Acredito que como aqui na terra, estas regiões recebam um acúmulo de moléculas de água devido a tua posição no globo!
    Por analogia, Isso torna mare moscovience(cratera belyev) uma grande potencial a conter água subterrânea, ainda mais porque não sofrem diretamente a ação de mare da terra por esta sempre do lado oposto da lua!
    eu acredito que as moléculas de água entrem por um lado(o visível), trazidas por vento lunares e tendam a sair pelo outro .(o oculto).
    isto esta o que acredito” ter visto”, quando observava uma filmagem de 1:00 hora de gravação em alta resolução feita aqui da terra por um telescópio de alta resolução.
    Todo vento lunar da face visível convergia para uma cratera aparentemente em um nível mais baixo em uma região tropical!

    1. Eu acredito haver “civilização” Lunariana neste local!(Mare Moscoviense-(cratera believ)).
      apareceu em umas imagens de alta resolução(HD), feita pela RLOC , mas só da para entender quando ela e montada sobre um relevo de ressonância .Tif.
      Através deste recurso estaque se esta possível perceber relevos 3D (profundidade) e então discernir os detalhes que a imagem 2D não traduz a nossa percepção dimensional (profundidade 3D)!
      Uma entrada a uma rede de tuneis subterrâneos!

  3. Excelente o vídeo! Meio engraçado, mas muito bom!
    Um tributo à altura dos serviços prestados pela Cassini.
    Quanto ao artigo, pactuo com a opinião do Salvador. Água tem em tudo quanto é canto do Universo, em diversas formas, como gasosa, sólida, agora líquida é complicado, ainda mais se for água doce, aí o negócio é foda.
    Assistir um programa que encontraram um planeta todinho feito de água, só que está longe pra car…

  4. Muito legal, esse vídeo com o Doutor cantando… ele é uma figura, com certeza um dos melhores personagens de Star Trek: Voyager. 🙂

  5. Olhe, Salvador! Você dá muito crédito aos comentários do sr.apô. Será que é tudo isto,mesmo!
    Veja o exemplo desta sua postagem, ele acrescenta o quê!

    1. Você viu quantas partes por milhão são? Na época não havia tecnologia para fazer esse tipo de detecção.

        1. Isso. São tecnologias completamente diferentes. Para ir à Lua e voltar, é basicamente força bruta e matemática. Combustão já eram bem conhecida, e matemática virou moleza com os primeiros computadores, que surgiram justamente naquela época. Agora, para detectar moléculas em partes por milhão, você precisa de outro conjunto de tecnologias, que só agora começamos a dominar. Mas, claro, você prefere acreditar em teorias da conspiração espalhadas por ignorantes. Então vá em frente. Continue escolhendo suas fontes desse jeito. 😛

          1. Tá , se ir para Lua é “basicamente força bruta e matemática”, por que não voltaram á Lua até hoje????
            30 anos sem colonizar o nosso satelite natural, é muito tempo, não acha?

  6. Salvador, gostei do seu artigo e do tom mais moderado a cerca da possibilidade de existir água na Lua.

    Não querendo plantar a discórdia kkkkkk mas não pude deixar de notar que o site “Inovação Tecnológica” (muito legal por sinal) também noticiou esse estudo. Estranhamente, a redação de lá se mostrou extremamente cética quanto essa descoberta, a ponto de contestar os dados e afirmar categoricamente que a dupla de cientistas “não apreendeu com erros anteriores”, que na verdade os novos dados são apenas hidroxila e não H2O.

    Bom, não sei de onde eles tiraram tanta certeza e se artigo teve a participação de algum estudioso ou especialista, até porque, não existe a indicação de quem seja o autor do mesmo, ou se alguma especialista a mais foi consultado.

    Mas na dúvida, prefiro deixar a controvérsia para os cientistas que com certeza irão confrontar os dados apresentados em seus estudos. No mais, fico com a sua opinião que julgo ser mais imparcial a cerca do estudo divulgado e que cada leitor tire as suas conclusões.

    1. PS: Robert Picardo… melhor ator de Voyager e interpretou um dos personagens mais carismáticos da série. PS: apensar de amar Star Trek e todas as suas encarnações nos filmes e séries não sei como Voyager é a série mais popular de jornada no Netflix. DS9, a Nova Geração e Enterprise são bem melhores e mais divertidas, não necessariamente nessa ordem!

        1. A série clássica está lá sim, Victor! E concordo com você, que Voyager é uma série sensacional, mas ela “viaja na maionese” mais do que a Nova Geração e DS9. Gostei muito de Enterprise… pena que a cortaram de repente.

          Estou tremendo nas bases, aguardando a estreia, no dia 25, de Star Trek: Discovery… Tenho receio que estraguem tudo, como fizeram com os novos filmes de cinema, dedicados apenas a explosões e correrias…

      1. Pessoal tá interpretando errado essa pesquisa. Voyager tem alguns dos episódios mais reassistidos. Mas, na média, TOS e TNG têm mais audiência que as outras.

    2. Eu acho assim. Foi publicado no “Science Advances”, da “Science”. Há uma controvérsia aí. Mas hidroxila é meio caminho andado pra formar água, né? Bate um próton nela e pronto, água. 😛

  7. Por falar em Star Trek – adoro todas as séries – procurei a resposta no seu livro e não encontrei.
    Como é feita a contagem do tempo – a data estelar – nessas séries? Data estelar também é ficcão ou ela existe de fato? Acompanho seu blog com muito interesse.

    1. Com muita criatividade. Hehehe
      Em geral (vale mais para TNG em diante), 1000 em data estelar equivale a aproximadamente um ano terrestre. Mas, para tornar tudo inconsistente, 1 em data estelar costuma corresponder a um dia. Como um ano não tem mil dias, a coisa não fecha. Mas tenha em mente que mesmo o Gene Roddenberry só queria a data estelar lá para denotar que a série se passava num futuro inespecífico, desapegado do calendário nosso atual. Ele nunca quis que fizesse grande sentido.

  8. Salvador então se confirma que a água não é tão rara assim no universo com se acreditava né?
    Outra coisa que não entendo é como a Lua e outras corpos celestes não perderam toda a sua água para o meio externo, há uma renovação da água perdida?
    Quais os componentes desta água, “salobra”, “doce”, pode ser potável?
    Imagine em outros sistemas solares, que descoberta mais incrível, será que a água é um componente básico no período formação de planetas, luas e outros corpos celestes.
    E você Salvador não acha que diante destas descobertas, em pouco tempo vamos confirmar que a vida é comum no universo?
    Cada dia que leio o seu BLOG e pesquiso sobre algumas descobertas tenho cada vez mais certeza que estas agências irão confirmar uma das perguntas que mais aflige a humanidade.
    Tem uma frase “Às vezes acredito que há vida em outros planetas às vezes eu acredito que não. Em qualquer dos casos, a conclusão é assombrosa.”

    Acho que poderíamos modifica-lá desta forma.
    Acredito que há vida em outros planetas, espero estar vivo para assistir a tudo isso.

    1. Água nunca foi rara no Universo. Água é uma das coisas mais comuns do Universo. Qualquer nebulosa vagabunda que a gente olha tem água.
      O difícil é achar água EM ESTADO LÍQUIDO. Mas Marte e as luas geladas estão provando que nem isso é tão difícil. 😉

  9. Olá!
    Esse mecanismo de formação de água já era bem conhecido ou é uma hipótese nova para explicar água na superfície da lua?
    Podemos esperar que, onde o vento solar chegar, havendo oxigênio e NÃO havendo atmosfera ou proteção magnética, há água?
    Obrigado!

    1. A hipótese não é nova, mas os resultados a fortalecem, porque correlacionam a distribuição de água com a latitude em vez de composição do solo — mostrando que o lugar é mais importante do que do que ele é feito. Não sei se dá para generalizar isso para qualquer lugar. Acho que vai depender de coisas como a temperatura do lugar e o quanto de radiação que chega para a reação ter um rendimento razoável, além da quantidade de oxigênio presente.

  10. Caramba! Com essa proporção, para extrair 1 copo de água tem de usar mais ou menos 1 tonelada de poeira lunar, é muito pouco. Interessante essa formação de molécula de água com os prótons do vento solar, surpreendente.

    E Salva, essa água nas crateras dos polos, é gelo ou um solo impregnado de água?

  11. A “homenagem” tem gosto discutível, uma vez que trata com deboche um dos eternos clássicos da música. Foi baseada na ária do terceiro ato da ópera “Rigoletto” – “La donna è mobile” (A mulher é volúvel) – que descreve a infelicidade inevitável de se apaixonar. De qualquer forma, a sonoridade é infinitamente superior ao lixo musical que se produz atualmente.

    1. Ah, você está brincando! É uma PARÓDIA! Você não gosta de paródias também? Eu já mencionei que deve ser muito chato ser você? rs

      1. Acabo de receber a informação de que esse ultraje musical foi utilizado também na série “Star Trek Voyager” na qual esse ator participou. Tamanho mau gosto só podia ter mesmo a sua origem nesse ridículo Sci-Fi…

        1. Então, é essa sua mania de “receber a informação” em vez de checar por si mesmo.
          A cena é genial. E ele canta La Donna è Mobile mesmo. Depois, diante de uma “emergência”, improvisa uma paródia para contorná-la. Mas tudo não passa de uma fantasia egomaníaca de seu personagem.
          Julgue por si mesmo em vez de “receber a informação”: https://www.youtube.com/watch?v=TKAL_219oH8

          1. Você não é homofóbico ? Hmmm entendi. Você diz que o outro gosta mais quem gosta eh voce. Extravasa, Vavá!

          2. Não escolho meus amigos com base na sexualidade deles. Mas você é tão burro que não entendeu que eu me referia à saída do armário do Apô quanto a Star Trek.

        2. “recebeu a informação”? hummm… acho que o Apolinário é um fã enrustido de Star Trek. Nem eu me lembrava dessa cena aí.

          1. O Apolinário está chateado por ver um dos comandantes da Atlantis (Stargate Atlantis) ter dado uma fugida na Satar Treck… Ô dor de cotovelo miserável… Assuma-se e saia do armário “Apol” ou seria “Memé”?… Vai te catar rabugento!…

    2. Você foi muito radical nesse ponto, eu achei a brincadeira bem legal. Mas quanto ao “lixo musical” atual, não há como discordar.

      1. não é bem assim, depende de onde procuramos. se formos procurar no lixão, muito provavelmente só encontraremos lixo mesmo…

    3. A homenagem é maravilhosa. “Foi baseada na ária do terceiro ato da ópera “Rigoletto” – “La donna è mobile”***
      Ainda mais porque faz faz uma segunda homenagem à obra citada.
      Poesia e humor de muito bom gosto.

      *** O fragmento entre aspas é creditado ao genial Apolinário Messias.

    4. Também acho que o Apolinário tá escamoteando a sua fissura pelos embalos trekinianos, pois sabia de cor uma cena que só os aficcionados sabiam. Se quiser apresento meu amigo que é presidente do fã clube do “sci-fi” que você ama…rs.

  12. Excelente post Salva, mas pelo que você colocou aqui a água não aparenta ser uma nova “Fontana di Trevi”. Alegria mesmo é ver nosso querido ator Robert Picardo, embaixador da Planetary Society, cantando “Le Cassini Opera” . Bem que Cassini merecia um fim com um altíssimo nível deste. Merece nota máxima com louvor.

Comments are closed.