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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Astronomia: Reviravolta nas águas de Marte

Por Salvador Nogueira

Afinal de contas, há ou não há água corrente a fluir por encostas de montanhas em Marte?

E AGORA, MISTER M?
O assunto da água líquida em Marte parece mais um jogo de ilusionismo: num dia, os cientistas anunciam com convicção que ela está lá e até hoje flui pelo solo. Dali a alguns anos, eles dizem que não, nada disso. Pois bem.

A FONTE SECOU
Estudo recém-publicado na revista “Nature Geoscience” analisou as evidências colhidas do espaço pela sonda Mars Reconnaissance Orbiter e concluiu que os traços que aparecem de forma recorrente nas encostas marcianas, conhecidos pela sigla RSL, provavelmente não são formados por água corrente.

PAIXÃO DE VERÃO
Essas linhas foram descobertas em 2011, e a Nasa apresentou em 2015 evidências de que elas seriam formadas por fluxos de água — um potencial ambiente habitável para micróbios ainda hoje no planeta vermelho. Pareceu na época bem conclusivo: além da natureza sazonal das linhas, que só se formam no verão marciano, houve a detecção de sais hidratados, só explicáveis pela presença de água.

MEUS SAIS
Esses fatos básicos não mudaram. De fato, tem de haver alguma água lá para produzir o que se enxerga da órbita. Mas quanta? O novo estudo sugere que bem pouca, insuficiente para fluir pelo solo, que dirá fornecer qualquer habitat para marcianos.

LADEIRA ABAIXO
Os pesquisadores defendem agora que os fluxos vistos da órbita são feitos por grãos de areia secos, como o que acontece em dunas. Para chegar a essa conclusão, eles analisaram os traços em 10 locais diferentes de Marte e notaram que eles só se formam em encostas mais inclinadas que 27 graus, o que não seria esperado de fluxos de água.

VAPOR
Certo, mas como então eles explicam os sais hidratados? A hipótese é que eles sejam fruto de uma reação da pequena quantidade de vapor d’água na atmosfera marciana com o solo. Fim da história? Calma. Ainda restam interrogações sobre o processo todo, de modo que não devemos descartar novas reviravoltas. E assim é a ciência — a paciente montagem de um quebra-cabeça, peça por peça, sistemática, sem saber de antemão qual figura ele vai formar no final.

A coluna “Astronomia” é publicada às segundas-feiras, na Folha Ilustrada.

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