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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Cientistas transmitem música para ETs e ‘escutam’ objeto interestelar, para o caso de ele ser uma nave

Por Salvador Nogueira

Se a humanidade acabar sem fazer qualquer contato com inteligência extraterrestre, não vai ter sido por falta de tentar. Enquanto os organizadores de um Festival de Música em Barcelona enviam uma mensagem de rádio com música terráquea para uma estrela próxima, uma equipe do projeto Breakthrough Listen sintoniza a partir desta quarta-feira (13) seus radiotelescópios no objeto interestelar ‘Oumuamua, que está de passagem pelo Sistema Solar, na esperança de que ele seja uma espaçonave alienígena.

Essas iniciativas são reunidas respectivamente nas categorias METI e SETI. ETI é sigla para inteligência extraterrestre. M é de mandar mensagem, e S é de busca. Nenhuma delas é totalmente inédita, mas inédito é o conhecimento que temos para promover ações como essa.

Começando pela iniciativa do Sónar Festival de Barcelona, que acontece em junho de 2018. Para celebrar a ocasião, os organizadores tiveram a ideia de promover a campanha “Sónar Calling GJ273 b” (“Sónar Chamando GJ273 b”).

Nela, reuniram trechos de canções diversas do gênero techno (tem Jean-Michel Jarre, Nina Kraviz e Kate Tempest, entre outros), agregada a uma saudação e um manual de instruções para decodificar o sinal digital em MP3, e dispararam, via rádio, para a estrela GJ273, também conhecida como Estrela de Luyten.

Concepção artística do sinal digital enviado ao planeta GJ273 b (Crédito: Danielle Futselaar/METI)

Localizada a 12,4 anos-luz de distância, ela é uma das estrelas mais próximas do Sistema Solar a sabidamente ter um planeta em sua zona habitável — uma superterra que chamamos de GJ273 b, por sinal.

Três transmissões foram realizadas nos dias 16, 17 e 18 de outubro, sempre à mesma hora do dia, a partir de um grande telescópio de 32 metros localizado na Noruega. Outras devem ser feitas em abril do ano que vem.

Os sinais estão viajando à velocidade da luz e devem chegar à estrela em 11 de março de 2030. Caso haja por lá alguém disposto a responder, só devemos esperar um sinal de volta depois de 2042. Comunicação interestelar é um troço, no mínimo, sonolento.

Claro, a essa altura, ninguém sabe se o planeta GJ273 b é mesmo habitável, que dirá lar de uma civilização inteligente. E, mesmo que seja esse o caso, eles precisarão estar com seus radiotelescópios apontados na direção do Sol e sintonizados nas frequências certas na hora exata em que a transmissão chegar lá para poderem ouvir. Ou seja, a chance de o sinal ser captado é quase nula.

O radiotelescópio EISCAT, na Noruega, enviou o sinal a GJ273 b. (Crédito: EISCAT)

“Esse é um experimento que diz, ‘Olá, estamos aqui; então, se quiserem responder estaremos ouvindo'”, explica Ignacio Ribas, astrônomo e diretor do Instituto de Estudos Espaciais da Catalunha, o responsável por selecionar a estrela-alvo da mensagem, em entrevista à revista “Wired”.

PERIGO MORA AO LADO?
Esse também é um experimento que vários cientistas, dentre eles o físico britânico Stephen Hawking, julgam extraordinariamente arriscado.

“Nós não sabemos muito sobre alienígenas, mas sabemos sobre humanos”, disse Hawking, num evento em 2015. “Se você olhar para a história, contato entre humanos e organismos menos inteligentes muitas vezes foram desastrosos pelo ponto de vista deles, e encontros entre civilizações com tecnologias avançadas versus primitivas foram ruins para as menos avançadas. Uma civilização que receba uma de nossas mensagens pode estar bilhões de anos à nossa frente. Se esse for o caso, ela será vastamente mais poderosa e pode não nos ver como mais valiosa do que o valor que damos a bactérias.”

É um argumento válido. Por outro lado, é difícil imaginar que uma civilização avançada já não saiba que estamos aqui — com ou sem transmissões para o espaço. É o que costuma contra-argumentar o astrônomo real britânico, sir Martin Rees. Com efeito, mesmo com nossas tecnologias atuais modestas, estamos prestes a sondar milhares de planetas próximos em busca de sinais de vida na composição de sua atmosfera. Não é inconcebível que em algumas décadas já tenhamos tecnologia para identificar poluição industrial ou mesmo as luzes noturnas em planetas potencialmente habitados por civilizações extraterrestres — se houver alguma lá fora.

Numa coisa, contudo, Hawking e Rees concordam: usar nossos radiotelescópios para buscar transmissões alienígenas vindas do espaço é uma boa ideia. Ela nos permite iniciar a busca por inteligência extraterrestre sem necessariamente revelar nossa existência.

É o que o pessoal do projeto Breakthrough Listen está fazendo. Graças a um investimento de US$ 100 milhões do magnata Yuri Milner, a iniciativa pretende escutar nada menos que 1 milhão de estrelas próximas em busca de sinais semelhantes àqueles que a Sónar Calling GJ273 b acaba de enviar ao espaço. E recentemente eles ganharam um alvo bem mais próximo.

Em setembro, o Sistema Solar recebeu a visita do primeiro objeto interestelar a ser detectado por astrônomos. Chamado de ‘Oumuamua, que na língua nativa do Havaí significa algo como “o primeiro a alcançar além”, ele provavelmente é um asteroide ejetado de algum sistema planetário jovem que calhou de encontrar o nosso, antes de seguir viagem pelo espaço interestelar.

Quando ele foi descoberto, em outubro, já estava de saída, depois de ter passado mais perto do Sol que o planeta Mercúrio. Os astrônomos trabalharam furiosamente para tentar observá-lo antes que estivesse longe demais para ser visto, e os resultados foram intrigantes. Seu comprimento era diversas vezes maior que a largura — uma forma incomum até mesmo para asteroides, que costumam ter superfície irregular. Também não se observou nenhum desprendimento de material volátil, mesmo ele passando bem perto do Sol, o que indica uma superfície rochosa ou metálica bastante estável.

VAI QUE, NÉ?
Embora a hipótese mais provável seja a de que se trata de um objeto de origem natural, é impossível a essa altura descartar a possibilidade de que seja uma espaçonave alienígena. Por que não? O papel da ciência não é taxar ideias de absurdas ou ridículas, e sim testá-las. É o que o Breakthrough Listen tentará fazer nesta quarta-feira, a partir das 18h (de Brasília), usando o radiotelescópio de Green Bank. Sua primeira fase de observações durará um total de 10 horas, divididas em quatro “épocas”, baseadas no período de rotação do objeto.

A essa altura, o ‘Oumuamua está a cerca de 2 unidades astronômicas da Terra — o dobro da distância Terra-Sol. Pode parecer muito, mas para esses radiotelescópios é mamão com mel. Estima-se que o instrumento de Green Bank seja capaz de detectar em menos de um minuto um sinal omnidirecional com a potência de um telefone celular, se houver algo transmitindo no objeto.

“A presença do ‘Oumuamua em nosso Sistema Solar dá ao Breakthrough Listen uma oportunidade de atingir sensibilidade sem precedentes de possíveis transmissores artificiais e demonstrar nossa habilidade de rastrear objetos próximos em movimento rápido”, diz Andrew Siemion, diretor do Centro de Pesquisa SETI de Berkeley, um dos coordenadores do projeto.

É importante destacar que, a despeito dessas iniciativas, segue sendo muitíssimo mais provável que o ‘Oumuamua seja um objeto natural. Sua trajetória até agora foi totalmente consistente com a de um objeto viajando ao sabor da gravidade, sem propulsão artificial, e as observações feitas até agora são consistentes com as de um asteroide desgastado por milhões de anos de viagem no ambiente interestelar.

“Este objeto é inteiramente consistente com a ideia de que seja um objeto natural; as cores (refletividade versus comprimento de onda) são consistentes com muitas coisas em nosso Sistema Solar, a taxa de rotação é similar à de coisas em nosso Sistema Solar, e a rota que ele está fazendo pelo Sistema Solar é consistente com a de um objeto natural”, diz Karen Meech, astrônoma que liderou estudo sobre o ‘Oumuamua publicado na “Nature”. “Tendo dito isso, não temos dados suficientes para provar que não é artificial”, completou.

Ou seja, não se pode no momento descartar totalmente a extraordinária hipótese de que ele seja uma sonda em visita ao Sistema Solar, da mesma forma que é perfeitamente concebível que as sondas Voyager, ejetadas daqui rumo ao espaço interestelar, protagonizem cena semelhante em algum sistema planetário longínquo em alguns milhões de anos.

De todo modo, as observações feitas pelo Breakthrough Listen terão valor científico mesmo que ele seja de origem natural, observando o objeto em frequências do espectro eletromagnético em que ele ainda não foi estudado.

É um fato que os pesquisadores envolvidos no Breakthrough Listen gostam de enfatizar: mesmo que jamais ouçamos alienígenas, vamos aprender muito com esses trabalhos. Eles citam a descoberta de várias dezenas de “disparos rápidos de rádio” (FRBs) repetitivos descobertos em agosto deste ano pelo projeto em uma galáxia anã distante como um exemplo desses ganhos científicos “colaterais”.

E não custa nada imaginar um cenário em que o ‘Oumuamua é mesmo uma sonda exploradora vinda de um sistema planetário longínquo para investigar a família solar. A exemplo do que fez a sonda Galileo num experimento conduzido por Carl Sagan em 1990, ela poderia acabar detectando nossas transmissões de rádio — evidência concreta de inteligência na Terra — e então estar programada para nos sinalizar de volta. Quem sabe não há uma mensagem para nós, só esperando para ser ouvida pelo Breakthrough Listen?

A seguir, cenas do próximo capítulo…

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