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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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A (não tão) Grande Mancha Vermelha

Por Salvador Nogueira

Novas imagens do Telescópio Espacial Hubble revelam que a Grande Mancha Vermelha de Júpiter talvez precise de um novo nome em breve. Atualmente, ela está mais para a Modesta Mancha Vermelha, atingindo seu menor tamanho desde que começamos a observá-la, lá no século 17. Será que vai sumir?

Sequência de imagens mostra a recente diminuição da Grande Mancha Vermelha
Sequência de imagens mostra a recente diminuição da Grande Mancha Vermelha

Esse processo de diminuição já foi identificado há quase um século (mais precisamente, na década de 1930), mas de uns tempos para cá o processo de encolhimento se acelerou. Estima-se que no final do século 19, sua largura fosse de cerca de 41 mil km — espaço mais que suficiente para colocar três Terras, uma do lado da outra. Quando as sondas Voyager passaram por Júpiter, entre 1979 e 1980, o tamanho tinha caído para cerca de 23 mil km.  Em 1995, uma imagem do Hubble indicou que ela estava com 21 mil km. Em 2009, nova observação indicou que ela estava com cerca de 18 mil. E agora atingiu modestos 16.500 km — um pouco mais que uma Terra de largura (12.756 km).

Sabemos que a famosa mancha é basicamente uma tempestade gigantesca na turbulenta atmosfera de Júpiter — um planeta gigante gasoso com cerca de 142 mil km de diâmetro. Sua presença constante ao longo dos séculos fez supor até que ela fosse até um traço permanente no planeta — um furacão que nunca se dissipa. Contudo, está cada vez mais claro que algo diferente está acontecendo agora, e a tempestade está diminuindo sua intensidade.

A essa altura, a mancha está se tornando esférica e perdendo, desde 2012, cerca de 1.000 km de largura por ano. Fazendo uma projeção linear, nesse ritmo, ela poderia sumir em menos de duas décadas. Mas a verdade é que ninguém sabe o que vai acontecer, até porque ainda não sabemos o que está rolando. Os pesquisadores liderados por Amy Simon, do Centro Goddard de Voo Espacial da Nasa, acreditam que o encolhimento é resultado da interação da mancha com pequenos redemoinhos que estão se alimentando da tempestade maior. “Nossa hipótese é que eles sejam os responsáveis pela mudança acelerada ao alterar a dinâmica e a energia internas da Grande Mancha Vermelha”, diz.

Seja qual for o destino final da Grande Mancha Vermelha, essa é uma história que nos ajuda a refletir sobre as diferenças de escala temporal em eventos astronômicos. Uma olhada casual para o céu nos dá a impressão de que o cosmos em geral e o Sistema Solar em particular são estáticos, pacatos e ordeiros. Os planetas são como sempre foram. Mas isso é uma ilusão. Na verdade, grandes dramas se desenrolam na evolução do Universo, e só não os percebemos porque uma única vida humana dá uma escala de tempo insuficiente para observar essas tragédias cósmicas, dignas do teatro grego. Talvez tenhamos de ensinar aos nossos filhos e netos que um dia Júpiter teve uma Grande Mancha Vermelha, que durou por séculos, mas depois desapareceu sem deixar vestígios. Ou talvez ela volte a crescer e diremos a eles que no nosso tempo ela chegou a ser bem mais modesta.

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