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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Uma amostra de poeira de estrelas

Por Salvador Nogueira

“Somos todos poeira de estrelas”, já dizia o saudoso astrônomo Carl Sagan. Agora, um grupo internacional de pesquisadores diz ter capturado sete grãos desse pó interestelar, graças ao trabalho da sonda Stardust, da Nasa.

Imagem mostra padrão de difração na análise de uma partícula de poeira interestelar.
Imagem mostra padrão de difração na análise de uma partícula de poeira interestelar.

O objetivo principal da espaçonave não-tripulada, lançada em 1999, era capturar fragmentos desprendidos do cometa Wild 2, visitado em 2004, e trazê-los de volta à Terra. Contudo, até chegar lá, a sonda também seria usada numa tentativa de colher pequenos grãos de poeira que vagam pelo espaço, vindos de fora do Sistema Solar.

As partículas eram colhidas por uma substância especial chamada de aerogel, que as freava lentamente, em vez de permitir sua desintegração no contato. Uma cápsula foi trazida de volta à Terra em 2006 com as preciosas amostras.

E desde então começou o penoso processo de encontrar as tais partículas. Pense bem, não é fácil. Estamos falando de um grãozinho medido em micrômetros (milésimos de milímetro). Para encontrá-los, foi preciso tirar literalmente milhões de fotos do aerogel, a diferentes profundidades (como se ele fosse fatiado), e procurar por trilhas deixadas pelo grão na entrada.

Para executar essa tarefa num tempo menor que algumas centenas de anos, os pesquisadores tiraram da cartola um truque usado primeiramente pelos cientistas dedicados à busca por inteligência extraterrestre: computação distribuída com a colaboração do público. No projeto Stardust@Home, voluntários do mundo inteiro podiam participar, analisando imagens do aerogel e marcando possíveis traços de partículas.

Para que se tenha uma ideia da eficácia da estratégia, 69 dos 71 sinais de partículas analisados agora foram encontrados pelo público, contra 2 dos próprios pesquisadores.

ANÁLISE
Uma vez identificados, era preciso analisá-los. Após a peneiragem, somente sete permaneceram como candidatos promissores a grãos de poeira interestelar. A maioria, em contraste, continha grande quantidade de alumínio, o que indicava que provavelmente eram lasquinhas da própria espaçonave que entraram no aerogel após impactos com micrometeoritos.

Dos sete, três eram de fato grãos na gelatina, e outros quatro eram partículas que deixaram microcrateras na moldura de alumínio que sustentava as células de aerogel. Todas deixaram sinais de sua composição química, que permitiram concluir que não se tratavam de grãos originários do Sistema Solar e que sua composição era mais variada do que antes se imaginava.

Processamento de amostras em laboratório da Stardust, no Centro Espacial Johnson, da Nasa.
Processamento de amostras em laboratório da Stardust, no Centro Espacial Johnson, da Nasa.

As duas maiores partículas pareciam ter uma composição fofa, similar à de um floco de neve, o que foi uma surpresa. Modelagens da poeira interestelar sugeriam que elas deviam ser pequenas e densas, diferentes do que foi observado. Outra surpresa foi encontrar sinais de enxofre em três das partículas que perfuraram o alumínio — alguns astrônomos acreditavam que compostos sulfúricos não deviam ocorrer em grãos de poeira interestelar.

“Quase tudo que sabíamos sobre poeira interestelar veio de observações astronômicas”, diz Andrew Westphal, físico da Universidade da Califórnia em Berkeley e primeiro autor do trabalho que reportou a descoberta, publicado na edição desta semana da revista “Science”. “A análise dessas partículas capturadas pela Stardust é nossa primeira olhada na complexidade da poeira interestelar, e a surpresa é que cada uma das partículas é bem diferente das demais.”

Os pesquisadores ficam agora divididos entre aprofundar os estudos — que resultariam na destruição das amostras — e desenvolver técnicas que garantam que vai valer a pena levar isso a cabo. “Essas partículas são tão preciosas. Temos de pensar com muito cuidado sobre o que vamos fazer com cada uma delas.”

Especula-se que esse material seja produzido em estrelas quando elas esgotam seu tempo de vida, explodindo como supernovas ou dissipando sua atmosfera após passarem um tempo “inchadas” como gigantes vermelhas. É aí que elementos como carbono, nitrogênio e oxigênio são espalhados pelo espaço e acabam reaproveitados na formação de novas estrelas e novos sistemas planetários.

Há 4,6 bilhões de anos, a nuvem de gás que deu origem ao Sol e a seus planetas estava cheia desses grãos de poeira interestelar. Os átomos que estão em seu corpo agora, naquela época, estavam espalhados em grãozinhos como esses. De fato, como dizia Carl, somos todos poeira de estrelas…

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