Mensageiro Sideral

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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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O brasileiro do Philae

Por Salvador Nogueira

O pouso do Philae teve um sabor especial para engenheiro mecatrônico Lucas de Mendonça Fonseca. Empresário do setor aeroespacial, ele participou, entre 2009 e 2012, dos testes e das simulações que antecederam a descida do módulo no cometa Churyumov-Gerasimenko. Na época ele trabalhava na DLR, a agência espacial alemã. No meio da muvuca ontem, por telefone, o pesquisador se disse emocionado com o sucesso. Fonseca sinceramente não esperava que a descida fosse bem-sucedida.

Lucas Fonseca, o engenheiro brasileiro que participou do projeto que viabilizou o pouso do Philae num cometa.
Lucas Fonseca, o engenheiro brasileiro que participou do projeto que viabilizou o pouso do Philae num cometa.

“Eu e vários dos meus colegas achamos que a probabilidade de sucesso, que a ESA deu em 50%, era muito. O número real devia ser bem mais baixo”, afirmou ao Mensageiro Sideral. Para ele, a ESA (Agência Espacial Europeia) errou ao colocar tanta ênfase no aspecto do pouso, em vez de destacar o sucesso da Rosetta.

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“A missão, desde o começo, foi programada para ter o orbitador”, disse. “O investimento nunca foi feito com base no sucesso ou não do Philae. E, independentemente do que acontecer agora, eu acho que já foi sucesso. Onde chegou, do jeito que está. Pelo menos metade dos experimentos foi realizada. É muito além do que eu imaginava.”

Confira aí os principais trechos da conversa.

Mensageiro Sideral – E aí, como você está depois desse pouso?

Lucas Fonseca – É uma emoção indescritível. Sofri demais.

Mensageiro Sideral – Conta um pouco mais de seu envolvimento com a missão. Você trabalhou nela lá na DLR, mas o que exatamente você fez?

Fonseca – Eu trabalhava com o pouso. Fiquei três anos na DLR. Fiz parte da equipe que desenvolveu o código que simulava o pouso. Fiz isso entre o final de 2009 e o fim de 2012. E uma coisa interessante é que, nessas simulações, a gente não tinha a mínima ideia do formato do cometa. Tudo que a gente desenvolveu era com base no que a gente imaginava que fosse o cometa.

Mensageiro Sideral – E por que você saiu de lá, na bica de chegar no cometa?

Fonseca – Eu tinha mulher aqui no Brasil e tinha minha empresa, precisava voltar. Originalmente era para eu ficar um ano só. Fiquei três. Tinha que voltar.

Mensageiro Sideral – O pouso foi tenso porque dois dos três mecanismos disponíveis para facilitá-lo falharam. O ADS [Sistema de Descida Ativa] fez falta?

Fonseca – Olha, o ADS estava na sonda, mas eles acreditavam que o risco de tê-lo era muito maior que o benefício que ele trazia. A gente sempre achou que o pouso poderia ser feito só com o uso do arpão e os parafusos de gelo. Fora isso, durante o pouso, tinha um mecanismo que chamamos de roda de voo. É um giroscópio de rotação constante, que entrega sempre o mesmo momento angular. Ele servia principalmente para compensar o outgassing, o gás saindo do cometa. Nosso maior medo era que o gás saindo do cometa fosse extremamente agressivo. Imagine umas bolas de neve do tamanho de uma bola de beisebol voando na direção da espaçonave. Depois constatamos que o outgassing era bem menor do que imaginávamos. Por esse lado, foi muito mais fácil do que imaginamos. Essa roda de voo absorveria o impacto dessas bolas de neve na sonda.

Mensageiro Sideral – Bem, o que importa é que aparentemente deu certo.

Fonseca – Sim, e uma coisa que precisa ser lembrada é que essa sonda, não só a Rosetta, mas o Philae também, eles foram projetados para um outro cometa, dez vezes menor. Houve um problema com o foguete Ariane e a missão acabou redirecionada para o 67P/Churyumov-Gerasimenko, que era um plano B. Muita coisa a gente foi descobrindo quando o veículo já estava sendo lançado. Por isso eu e vários dos meus colegas achamos que a probabilidade de sucesso, que a ESA deu em 50%, era muito. O número real devia ser bem mais baixo. A missão, desde o começo, foi programada para ter o orbitador. O Philae foi um algo a mais. O investimento nunca foi feito com base no sucesso ou não do Philae. E, independentemente do que acontecer agora, eu acho que já foi sucesso. Onde chegou, do jeito que está. Pelo menos metade dos experimentos foi realizada. É muito além do que eu imaginava.

Mensageiro Sideral – E a ESA fez um oba-oba enorme em cima do pouso. Poderia ter gerado uma frustração em caso de fracasso, ofustando os resultados da própria Rosetta, não?

Fonseca – Na minha opinião, a ESA não devia ter feito esse marketing em cima do Philae. No fim deu certo, acabou dando visibilidade muito boa para ESA, para justificar o investimento. E tem algo muito interessante. Em todas as simulações, pelo menos em todas das quais eu participei, os pousos levavam entre 45 minutos e duas horas. Nunca se imaginou, na concepção original da missão, num pouso de sete horas. Por que foi feito? Justamente pela complexidade do formato do cometa. Foi no limite. Muito arriscado. Por outro lado, teve essa coisa do outgassing, que preocupava todo mundo antes, e quando chegamos lá vimos que não era um grande problema.

Mensageiro Sideral – Bem, e qual é a sensação para você, agora que deu certo?

Fonseca – O sentimento é interessante. Quando você vivencia o trabalho lá, você não percebe isso. Mas quando sai e começa a fazer outros projetos, fica uma coisa muito interessante. É um trabalho de três anos que é resumido em sete horas. Vem muito forte a sensação de que participei de algo grande. Você vê o resultado num momento muito curto.

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