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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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O primeiro dia do Philae no cometa

Por Salvador Nogueira

Atualizado às 12h33

O dia seguinte ao pouso começou quente, com a divulgação das primeiras imagens feitas pelo módulo Philae, diretamente da superfície do cometa Churyumov-Gerasimenko. Ambos estão a 510 milhões de quilômetros da Terra, na região do cinturão de asteroides entre Marte e Júpiter.

Imagem mostra um dos pés do Philae, na superfície do cometa.
Imagem mostra um dos pés do Philae, na superfície do cometa.

Essa imagem representa duas fotos produzidas pelo instrumento ÇIVA (pronuncia-se “shiva”), responsável por registrar os arredores da sonda. Às 11h, a ESA (Agência Espacial Europeia) exibiu o conjunto completo de seis imagens que formam a visão panorâmica, e as imagens revelam que o Philae pousou ao lado da parede de um penhasco. Há indicativos de que ele não está paralelo com o chão e uma das pernas do trem de pouso está suspensa no vácuo. Ele está estável, mas numa posição delicada, que deve inspirar cuidados.

A narrativa de pouso, agora confirmada pelos engenheiros, foi épica. O módulo quicou duas vezes na superfície do cometa antes de se estabilizar no solo, após a terceira descida. Segundo dados do instrumento ROMAP, que avalia o campo magnético, o primeiro toque no solo deve ter sido feito às 13h33, a uma velocidade de 1 m/s. Ele quicou de volta para cima a 38 cm/s e flutuou por cerca de 1 km, até voltar a tocar o chão às 15h26. Sofreu novo rebote, desta vez a meros 3 cm/s, e voltou a pousar às 15h33, desta vez para ficar. No frigir dos ovos, um salto de quase duas horas e outro de seis minutos. A débil gravidade do astro fez com que todo esse sobe-e-desce ocorresse de forma gentil, sem causar danos ao veículo.

Sequência de fotos da Rosetta (uma por hora) mostra a descida do Philae.
Sequência de fotos da Rosetta (uma por hora) mostra a descida do Philae.

Em meio ao frenesi do pouso de ontem (aqui o resumo da ópera, aqui o registro “minuto a minuto”), o Mensageiro Sideral conversou com Holger Sierks, cientista-chefe da câmera OSIRIS, instalada a bordo da espaçonave Rosetta. Um de seus objetivos após o pouso era tentar flagrar o Philae intacto e bem na superfície. Ontem à noite, essa tentativa fracassou. “Ainda temos de encontrá-lo na superfície”, ele me contou. Perguntei se existia a possibilidade de manobrar a Rosetta para obter imagens mais detalhadas do Philae, numa tentativa de decifrar o que ocorreu durante o pouso. A resposta é que sim, mas Sierks demonstrou apreensão pelo veículo de solo. “Não podemos fazer muito, ele terá de se ajudar. Espero que a bateria dure por um tempo, e obtenhamos sol suficiente nas células solares.”

Imagem da Rosetta mostra o pequeno Philae descendo rumo ao cometa.
Imagem da Rosetta mostra o pequeno Philae descendo rumo ao cometa.

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A preocupação é bastante justificável. Novas estimativas com base na telemetria dão conta de que o Philae está recebendo só 1h30 de exposição solar por rotação, o que é muito pouco se comparado à expectativa original, que era de 6h a 7h. Os engenheiros tentarão fazer pequenos movimentos que realinhem melhor o módulo, de forma a melhorar esse desempenho. Mas a situação não parece boa para observações de longo prazo. Por ora, os instrumentos que exigem esforço mecânico (e portanto mais energia) não foram ativados. Nada de brocas ou perfurações no solo.

Imagem do primeiro local de pouso, fotografado pelo Philae a 40 metros de altura.
Imagem do primeiro local de pouso, fotografado pelo Philae a 40 metros de altura.

Ontem, também troquei ideias com o engenheiro brasileiro Lucas Fonseca, que trabalhou na DLR (agência espacial alemã) por três anos no Philae, focado em simulações dos sistemas de pouso. Ele diz que a ancoragem estável é importante, mas para alguns instrumentos o mais importante é a altura que eles guardam do solo a fim de realizar suas funções. É possível que a sonda tenha ficado alto demais, o que poderia atrapalhar. (Leia o que mais Fonseca me disse clicando aqui.)

Por fim, duas palavrinhas sobre o “som” do cometa, que todo mundo está comentando por aí. São oscilações magnéticas provavelmente causadas pela interação de partículas do cometa com raios de alta energia vindos do espaço. É “som” entre aspas, porque não se tratam de ondas sonoras, mas magnetismo convertido em áudio. Como se sabe, som não se propaga no vácuo. (Ficou curioso? Ouça aqui!)

O Philae, em conjunto com a Rosetta, promete revolucionar o entendimento dos cometas. Em seus resultados, podem residir pistas para compreender a formação do nosso Sistema Solar, o surgimento de planetas com água líquida em abundância, como o nosso, e talvez até a origem da vida. Mas não será para já. De toda forma, a aventura da primeira visita de um artefato humano a um cometa provavelmente marcará uma geração.

Lembro-me de, ainda molequinho de tudo, me encantar com a passagem do cometa Halley pelas imediações da Terra, em 1986. Na ocasião, os europeus começaram seu flerte com esses intrigantes objetos, ao despachar a sonda Giotto para tirar fotos (para a época espetaculares) de seu núcleo. Agora, com a Rosetta e o Philae, a sensação é a de que o círculo se fecha. Primeiro, um cometa veio até nós. Agora nós retribuímos a visita, com toda pompa e circunstância. Demonstração contundente de que, não importa o tamanho do desafio, a dureza das probabilidades de sucesso, o espírito humano é impelido a abraçar o cosmos que habita.

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