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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Pontos brilhantes em Ceres parecem ser plumas de água, diz Nasa

Por Salvador Nogueira

É a pergunta que eu mais ouço por esses dias: e os pontos brilhantes na superfície de Ceres, o planeta anão? Ainda aguardamos a resposta definitiva, mas Andreas Nathues, líder da equipe da câmera da sonda Dawn e pesquisador do Instituto Max Planck, na Alemanha, apresentou as conclusões iniciais da Nasa, durante a 46a Conferência de Ciência Lunar e Planetária, nos Estados Unidos: provavelmente, são plumas de vapor d’água emanando de gelo localizado no fundo da cratera.

Imagem de Ceres obtida pela Dawn a 46 mil km do planeta anão revela dois misteriosos pontos brilhantes na superfície. (Crédito: Nasa)
Imagem de Ceres obtida pela Dawn a 46 mil km do planeta anão revela dois misteriosos pontos brilhantes na superfície. (Crédito: Nasa)

Antes que alguém questione: ainda não há imagens disponíveis que sejam muito melhores do que as divulgadas até agora. E isso não é motivos para alimentar teorias da conspiração. Desde que a Dawn chegou a Ceres, no último dia 6, a espaçonave tem usado seus motores iônicos para suavemente espiralar na direção do maior membro do cinturão de asteroides, até atingir sua primeira órbita de trabalho, a 13.500 km de altitude, no fim de abril. Antes disso, no dia 10 de abril, haverá outra sequência de capturas de fotos, mas apenas 17% do planeta anão aparecerá iluminado. A coisa só ficará boa mesmo quando chegarmos ao final do mês e a Dawn desligar seus motores para a primeira bateria de observações científicas.

Contudo, ao analisar cuidadosamente as imagens já colhidas, os cientistas começam a apresentar suas interpretações e a produzir trabalhos científicos. E duas coisas estranhas marcam os pontos brilhantes. Por um lado, a topografia local parece indicar que eles emanam do fundo de uma cratera de 80 km de diâmetro e não estão numa elevação. Por outro lado, a análise do brilho conforme Ceres avança em sua rotação mostra que ele é fruto de reflexão de luz solar, mas que ainda permanece visível quando o fundo da cratera já está sob a sombra, além do chamado terminador — a linha que divide o lado iluminado do escuro.

“Durante o dia, o ponto evolui: ele fica mais brilhante. No anoitecer ele fica menos brilhante e na noite ele desaparece completamente”, disse Nathues em sua apresentação, segundo Emily Lakdawalla, blogueira da ONG Planetary Society que esteve no evento.

COMO EXPLICAR ISSO?
De acordo com Nathues, a melhor hipótese é que plumas de vapor d’água estejam emanando do fundo exposto de gelo da cratera. A coluna de vapor mais alta acaba refletindo luz solar quando o fundo já está no escuro, o que explica o padrão de luminosidade observado.

As imagens colhidas até agora são incapazes de “resolver” qualquer dos dois pontos brilhantes, ou seja, delineá-los com algum nível de resolução. Isso significa que o maior deles deve ter diâmetro menor que quatro quilômetros. A partir disso, os cientistas também puderam estimar o quanto de luz é refletido pela superfície (o chamado albedo) no ponto brilhante. Resultado: pelo menos 40% — mas pode ser muito mais. Esse nível de refletividade é consistente com uma superfície de gelo, mas não se trata da única explicação possível.

Juntando todas as peças, a confirmação de que Ceres tem algum tipo de atividade capaz de emanar plumas de vapor d’água — como já sugeria o Observatório Espacial Herschel, da Agência Espacial Europeia — parece estar mais próxima. Ainda falta compreender o que está produzindo essa atividade. Foi um impacto de asteroide que expôs o gelo no fundo da cratera? Criovulcões que expelem água, movidos pela pressão interna no interior de Ceres?

Aguarde cenas do próximo capítulo, conforme a Dawn se instala em sua órbita científica para transformar nossa compreensão do único planeta anão existente entre Marte e Júpiter.

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