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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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A galáxia mais distante já vista

Por Salvador Nogueira

Novo recorde na astronomia: um grupo internacional de pesquisadores anunciou a descoberta da galáxia mais distante já vista até agora. A luz detectada pelos telescópios partiu dela quando o Universo tinha apenas cerca de 5% de sua idade atual, mais de 13 bilhões de anos atrás. O achado representa uma janela para a investigação da turbulenta adolescência cósmica — o que, convenhamos, é um grande feito. Todo mundo sabe que adolescentes nunca gostam de ser espionados.

Imagem do Telescópio Espacial Hubble detecta luz de galáxia formada mais de 13 bilhões de anos atrás.
Imagens do Telescópio Espacial Hubble detectam luz da galáxia mais distante já vista (seta indica a posição, zoom no destaque), formada mais de 13 bilhões de anos atrás. (Crédito: Nasa/ESA)

A galáxia EGS-zs8-1, como foi batizada pelos cientistas, é particularmente surpreendente, porque, apesar de ser uma das primeiras da história do Universo (ao menos que tenhamos conseguido ver até agora), ela já é bem parrudinha — os pesquisadores liderados por Pascal Oesch, da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, estimam que ela tenha cerca de 15% da massa da nossa Via Láctea.

A detecção original foi feita combinando dados dos telescópios espaciais Hubble e Spitzer, e a observação subsequente que permitiu a estimativa da distância (e da idade) foi conduzida com o telescópio Keck I, no Havaí. Os resultados acabam de ser publicados no periódico “Astrophysical Journal Letters”.


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DE VOLTA AO COMEÇO
É uma coisa que encanta tanto quanto choca, mas observar as profundezas do cosmos equivale a comprar um bilhete para uma viagem ao passado. Como a luz viaja a uma velocidade enorme, mas ainda assim limitada, sua travessia de enormes distâncias no espaço não é instantânea. A luz dessa galáxia longínqua que agora chega aos nossos telescópios partiu de lá quando o Universo tinha “apenas” 650 milhões de anos — hoje ele tem 13,8 bilhões de anos.

E como sabemos há quanto tempo a luz está em trânsito? Acontece que, enquanto ela viaja pelo espaço, o próprio espaço está se esticando — um efeito da expansão iniciada pelo Big Bang. E aí isso faz com que a própria onda de luz se estique durante o caminho, alterando sua frequência. Em outras palavras, a luz vai ficando mais avermelhada. A medição precisa desse “desvio para o vermelho” (ou redshift, em inglês) é o que permite calcular quanto espaço a luz de fato atravessou.

No caso em questão (redshift = 7,73, para os entendidos), a luz da galáxia EGS-zs8-1 (como foi batizada pelos astrônomos) viajou por cerca de 13,1 bilhões de anos, mas a galáxia a essa altura está a uma distância bem maior que 13,1 bilhões de anos-luz, pois regiões do espaço que estavam mais comprimidas na época em que a luz começou sua jornada hoje já se esticaram bem mais. Resultado: EGS-zs8-1 deve estar atualmente a quase 30 bilhões de anos-luz da Terra.

A análise da luz permitiu estimar não só o porte da galáxia, comparado ao da Via Láctea, como também deu margem a um cálculo do ritmo de formação estelar nela. E ele é cerca de 80 vezes maior do que o visto na nossa galáxia hoje.

PUBERDADE CÓSMICA
Trata-se de mais um estudo que ajuda a consolidar a noção de que o Universo teve uma adolescência tardia, rápida e furiosa, atingindo um alto grau de maturidade já em seu primeiro bilhão de anos de existência. Decerto, naquela galáxia, mais de 13 bilhões de anos atrás, havia um grande número de estrelas e um enriquecimento razoável das nebulosas com elementos químicos pesados — por meio de supernovas — para viabilizar a existência de todos os ingredientes necessários à vida. Ao que tudo indica, somos recém-chegados a uma festa que já está rolando há muito, muito tempo.

Os pesquisadores estão encantados com o acesso cada vez maior, por meio de instrumentos mais sofisticados, desse período crucial da “puberdade” cósmica, a chamada era da reionização, em que as galáxias já começavam a se tornar grandonas, mas se comportavam de maneira bem diferente de suas versões maduras, produzindo estrelas em ritmo furioso. A expectativa deles é que novos recordes de distância (e idade) sejam batidos nos próximos anos, sobretudo quando o Telescópio Espacial James Webb, rotulado pela Nasa como o sucessor do Hubble, for ao espaço, em 2018.

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