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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Dando forma à Via Láctea

Por Salvador Nogueira

Dizem que santo de casa não faz milagre, e esse certamente é um ditado que se aplica aos astrônomos terráqueos que tentam reconstruir a forma da Via Láctea. É muito difícil delinear a configuração da nossa própria galáxia, e por uma razão óbvia: estamos dentro dela. Mas um grupo de astrônomos brasileiros parece ter encontrado um caminho para contornar essa dificuldade.

A Via Láctea e a posição de cerca de 100 aglomerados estelares estudados pelo grupo brasileiro. (Crédito: Nasa/JPL-Caltech/UFRGS)
A Via Láctea e a posição de 99 aglomerados estelares estudados pelo grupo brasileiro, delineando uma configuração de quatro braços espirais na nossa galáxia. (Crédito: Nasa/JPL-Caltech/UFRGS)

Denilso Camargo e seus colaboradores Charles José Bonatto e Eduardo Bica, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, estão usando a posição de aglomerados de estrelas para mapear com razoável precisão a configuração dos braços galácticos. E, segundo eles, há boas razões para acreditar que a Via Láctea tem quatro braços espirais, e não dois como se costumava pensar.

O trio fez um pente-fino em imagens colhidas pelo satélite Wise, da Nasa, que realiza detecções em infravermelho e por isso mesmo é capaz de identificar regiões mais “empoeiradas” do espaço. Ao longo de 2015, Camargo e cia. reportaram a descoberta de mais de 400 chamados aglomerados estelares embutidos espalhados pela Via Láctea. São agregados de estrelas ainda envoltos em grandes massas de gás e poeira.

Os aglomerados em geral são os resquícios de berçários estelares. As estrelas costumam nascer em ninhadas grandes, formadas a partir de nebulosas. Conforme nascem, esses milhares de estrelas dispersam o gás remanescente, e o que resta é o aglomerado aberto. Com o passar do tempo, as estrelas acabam se espalhando e o aglomerado se desfaz por completo. O Sol provavelmente nasceu assim, mas isso foi há 4,6 bilhões de anos. Hoje, não há sinal do aglomerado de que fizemos parte nos primórdios do Sistema Solar.

Os aglomerados embutidos estão naquele estágio em que o gás em seu interior já foi quase totalmente disperso (ainda pode acontecer alguma formação estelar nele), mas ainda há bastante poeira circundante. São portanto relativamente jovens e sua posição atual é um bom indicativo de onde eles se formaram originalmente — embora, claro, eles já tenham se deslocado um pouco. Em galáxias espirais, as regiões mais propícias à formação de aglomerados são justamente os braços, onde há maior concentração de gás.

Em seu mais recente trabalho, publicado no “Monthly Notices of the Royal Astronomical Society”, os pesquisadores da UFRGS estudaram detalhadamente 18 aglomerados embutidos. E eles reforçam a ideia dos quatro braços. Uma análise que inclui mais aglomerados — 99, ainda que com maior incerteza em suas posições — também sustenta a hipótese.

E A BARRA?
O estudo dos brasileiros ainda encontra uma dificuldade. Como conciliar a ideia de quatro braços — que por si só não é controversa — com o fato de que a Via Láctea parece ter uma barra mais densa, composta por uma grande concentração de estrelas e gás, na sua região central? Entre as galáxias espirais de quatro braços vistas lá fora, nenhuma tem barra.

“Esse é um problema a ser resolvido”, admite Camargo ao Mensageiro Sideral.

Na comunidade astronômica, é claro, a controvérsia sobre o número de braços da Via Láctea só poderá ser encerrada com mais estudos. “O trabalho é interessante, mas não é conclusivo”, comenta Augusto Damineli, astrônomo da USP (Universidade de São Paulo) que há anos investiga a estrutura da nossa galáxia e não participou do atual estudo.

“Note os aglomerados espalhados atrás de Órion, que não seguem um braço espiral com muita fidelidade. Além disso, é uma região pequena e não é raro que braços espirais apresentem bifurcações locais e não braços inteiros”, afirma Damineli. “E outro detalhe: os aglomerados abertos nascem em braços e depois se afastam dele. Assim, o local atual do braço não é exatamente onde estão os aglomerados abertos hoje, mas onde eles estavam quando nasceram.”

Alguns dos aglomerados estudados pelos brasileiros, em imagem do satélite Wise (Crédito: Nasa/Camargo et al.)
Alguns dos aglomerados estudados pelos brasileiros, em imagem do satélite Wise (Crédito: Nasa/Camargo et al.)

Esse é um problema menor para os aglomerados embutidos, que são extremamente jovens, mas ainda assim precisa ser levado em conta. Nenhum dos 18 aglomerados em torno dos quais o estudo principal se concentra parece ter mais de 5 milhões de anos, o que é uma ninharia em termos de translação galáctica. O Sol, por exemplo, leva cerca de 250 milhões de anos para dar uma volta em torno do centro da galáxia.

Os próprios autores do estudo mostram, contudo, uma complicação adicional, ao indicar com barras de erro a incerteza envolvida na posição estimada dos aglomerados. “Como as distâncias são enormes, aumentam as incertezas”, diz Camargo. “Preferimos mostrar que são grandes. Mas ainda assim dá para ver claramente os aglomerados traçando o braço externo.”

UMA NOVA ESPERANÇA
Espera-se que os dados do satélite europeu Gaia, lançado no fim de 2013, possam iluminar a questão. Sua principal missão é fazer um censo da Via Láctea, medindo por astrometria a posição de cerca de 1 bilhão de estrelas. “Certamente promoverá grandes avanços”, afirma o pesquisador da UFRGS.

Enquanto isso, o grupo brasileiro pretende continuar mapeando mais aglomerados e associações estelares, na esperança de delinear com mais precisão o que eles acreditam ser os quatro braços da Via Láctea. “Principalmente para Sagittarius-Carina, que ainda são poucos objetos. Mas acho que no futuro conseguiremos resultados definitivos”, diz Camargo.

E a saga para decifrar a forma da nossa galáxia continua. Não perca os próximos capítulos.

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