Mensageiro Sideral

De onde viemos, onde estamos e para onde vamos

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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Adeus a Gene Cernan: minha conversa com o último homem a pisar na Lua

Por Salvador Nogueira

Eugene Cernan, comandante da missão Apollo 17 e o último homem a andar pela Lua, morreu nesta segunda-feira (16), informou a Nasa, agência espacial americana. Ele tinha 82 anos.

Veterano de três voos espaciais, Cernan começou sua carreira como aviador da Marinha americana e foi selecionado pelo programa espacial dos EUA para virar astronauta em 1963, no terceiro processo seletivo promovido pela Nasa.

Ele era o piloto reserva da missão Gemini 9, precursora do programa Apollo, mas foi chamado, juntamente com Thomas Stafford, a realizar o voo, depois que a tripulação titular morreu num acidente de avião pouco antes do lançamento.

Depois disso, Cernan ainda faria dois outros voos espaciais — os dois até a Lua. Na Apollo 10, em maio de 1969, ele fez um ensaio geral para a primeira tentativa de pouso, chegando a se aproximar da superfície com o módulo lunar, mas o fim da viagem só seria concluído em julho daquele ano, por Neil Armstrong e Buzz Aldrin, na Apollo 11.

Gene Cernan com a bandeira americana na superfície da Lua, em 1972. (Crédito: Nasa)
Gene Cernan com a bandeira americana na superfície da Lua, em 1972. (Crédito: Nasa)

Depois, ele seria escalado para comandar a última das missões lunares, a Apollo 17. Com a função, veio a marca que o acompanhou pelo resto de sua vida: o último homem a pisar na Lua — ao menos até agora. (A propósito, se você quiser reviver a missão inteira em tempo real, clique aqui.)

Cernan se aposentou da Nasa (e do serviço militar) em 1976, mas continuou envolvido com o setor aeroespacial. Em 2010, tive o incrível privilégio de entrevistá-lo para esta Folha. Naquele ano, o material foi publicado em forma de depoimento, com cortes severos para caber no espaço da página. Agora, nada mais justo que publicar a conversa na íntegra — uma singela homenagem ao espírito desbravador e à mente afiada de Gene.

O Mensageiro Sideral e Gene Cernan, depois de uma entrevista incrível em 2010. (Crédito: Salvador Nogueira/arquivo pessoal)
O Mensageiro Sideral e Gene Cernan, depois de uma entrevista incrível em 2010. (Crédito: Salvador Nogueira/arquivo pessoal)

É sua primeira visita ao Brasil?
Sim. Esta é minha primeira vez no Brasil. Eu estive em todas as partes do mundo nos últimos 40 anos, mas nunca estive aqui. É a primeira vez que vim para cá. E, quando eu passei por Manaus, eu disse: essa é a parte do Brasil que eu queria ver. Porque, você sabe, São Paulo é uma cidade bonita. Mas Nova York é uma cidade bonita. Paris é uma cidade bonita.

E você teve a chance de ir até Manaus?
Não, infelizmente estou indo embora amanhã, então não tive chance de ir. Mas eu já recebi muitos convites para voltar.

Um dos seus principais compromissos no Brasil foi ministrar uma palestra sobre segurança de voo. Como o programa espacial ajuda a desenvolver a segurança de voo para a aviação?
É uma ótima pergunta, porque eu tento transmitir a forma como eliminamos, administramos e aceitamos riscos no programa espacial, que não é diferente de quando projetamos [um avião], construímos e testamos para eliminar riscos, vemos o que sobra e então avaliamos se o risco remanescente vale a pena correr. Eu tenho trabalhado com a Bombardier por provavelmente uns 12 anos e me tornei meio que o embaixador da Bombardier em segurança de voo. E eu gosto disso, porque conforme a tecnologia evolui depressa, começo a ver pilotos mais jovens dependerem exclusivamente da tecnologia e tenderem a perder contato com alguns dos fatores básicos ligados a pilotar um avião com segurança. Um dos meus lemas é “Use a tecnologia como um auxílio, não como uma muleta”. Use-a como um recurso, mas não dependa dela exclusivamente, porque se ela falhar… Essa é uma das coisas que eu falo quando converso com esses jovens aviadores. No programa espacial, nós tínhamos diretrizes não muito diferentes do que você tem na aviação corporativa. Você precisava ir a algum lugar, e em certas circunstâncias a meteorologia entra no jogo, e todas essas coisas que você precisa considerar como piloto. E muitas dessas coisas também entram no programa espacial. Nós tínhamos meteorologia no chão, mas não na Lua. Mas, claro, tínhamos de levar em conta todos esses fatores. Você não entra simplesmente no Challenger-300, pressiona o botão verde e voa para Nova York. Você precisa fazer um planejamento, e o planejamento que fazíamos no programa espacial levava meses e anos para executar uma missão. Então é um pouco diferente, nesse sentido, mas tínhamos de considerar… Espaçonaves são projetadas com um propósito específico. Elas foram projetadas para ir à Lua, você tinha de lidar com um certo ambiente. Quando você desenvolve um Challenger, um Global, ou qualquer avião, você o projeta para voar a certas altitudes, por certas distâncias, ele precisa lidar com certos problemas com a meteorologia… ele precisa ser projetado para cumprir os requerimentos da missão, e você tenta projetar a segurança na própria aeronave ou espaçonave. Quando falo de risco, você tenta, com a ajuda da tecnologia, eliminar todos os riscos potenciais que você pode encontrar. No espaço, na aviação civil, você tenta projetar essas coisas na máquina — tirá-las do caminho. Você inclui redundâncias, você se preocupa com problemas que pode ter com uma roda, um pneu furado, e você inclui dois pneus nele.

Então a principal contribuição da exploração espacial para a segurança de voo está na cultura?
É a cultura. Você está certo, é isso mesmo. É a cultura, que você precisa trazer logo no início para o negócio. Isso entra com os projetistas, e depois você se volta para quem vai pilotar a máquina, quem vai pilotar a espaçonave, o avião. É a mesma cultura. Você primeiro tira tantos riscos quanto conseguir no design, e o que sobrar você analisa pela perspectiva de como você vai administrar aquele risco. Você sabe, se a meteorologia não ajuda, se falta combustível, você administra o risco e, conforme for, você nem sai para voar naquele dia. Acontece bastante no programa espacial, você não pode decolar no dia que quiser. Administrar o risco é uma cultura. É similar ao que fizemos no programa espacial. No fim do dia, quando você vai à Lua, você ainda vai em estar em sério perigo. Quando você voa a 51 mil pés de altitude por sobre o oceano, você ainda está num ambiente que precisa de muita cautela, de certa forma, você está em perigo. Sabe, eu não quero apavorar as pessoas, mas você não está na sua sala de estar. A 51 mil pés sobre o Atlântico ou o Pacífico, é um lugar diferente para se estar caso você tenha um problema. Então, precisamos nos perguntar: construímos a espaçonave ou ao avião bem o suficiente? É a cultura de administrar o risco. E, tendo avaliado os riscos, você precisa se perguntar: vale a pena? Então vamos. Agora nós temos jatinhos que podem voar sobre os oceanos não só com a segurança da própria aeronave, mas com a segurança ofertada pela cultura de quem está pilotando a aeronave. O que estamos tentando fazer pela nova geração de pilotos.

Estamos falando de assumir riscos, administrar riscos, e o programa espacial americano, atualmente, parece ter dificuldades para lidar com isso. Existe a noção de que a segurança dos astronautas precisa ser garantida. Isso não impede o programa de avançar?
Esse é um ponto bem sensível, porque ninguém garantiu para mim, quando eu fui para a Lua, que eu voltaria para casa. Nós fizemos o que eu estava falando, a cultura de projetar a espaçonave de forma a administrarmos o risco, e então fazíamos a avaliação: vale a pena? Se valesse, nós iríamos. Se não, ficaríamos em casa. No caso, valia a pena correr o risco. Nós tínhamos de ser audaciosos. Quando a Apollo 8 foi à Lua, e foi uma decisão audaciosa, nós enviamos três seres humanos para a Lua na primeira vez que colocamos alguém num foguete Saturn V. Primeira vez! E os enviamos à Lua. E havia uma razão para que fizéssemos isso. Estávamos no meio de uma Guerra Fria com a União Soviética. O risco valia a pena. Tínhamos uma boa espaçonave, tínhamos um bom plano, pensamos nos riscos, administramos esses riscos da melhor maneira e acabou, no final, que felizmente fizemos a decisão certa. Foi um sucesso. Mas tínhamos de ser audazes, tínhamos de aceitar o risco. Mas, ao longo dos anos, e eu não acho que isso tenha sido só com o programa espacial, mas eu acho que é uma mudança de geração, que parece ter acontecido no mundo todo. Nós todos, agora, queremos garantias. As novas gerações, meus filhos, meus netos, eu vejo isso nos Estados Unidos, todo mundo quer uma garantia. Se eu vou trabalhar para um jornal, eu quero uma garantia de quatro semanas de férias, quero garantia de que no fim do ano eu receba um bônus. No esporte profissional, quero uma garantia de que, faça eu 50 home-runs ou quebre a perna, eu vá receber meu salário. E eu chamo isso de aversão ao risco. O mundo, as gerações mais novas, tem se tornado algo como avesso ao risco de aceitar certos desafios, como os que aceitamos ao ir para a Lua. Nós vimos isso no programa espacial porque, após os acidentes como o Challenger e o Columbia, você pode ver nós, nos Estados Unidos, com nosso programa espacial, nos tornando mais conservadores. Sabe… a Apollo 12 decolou para a Lua no meio de uma tempestade. Se há uma nuvem no céu hoje em dia, a gente não lança um ônibus espacial. Nós tendemos a ficar mais conservadores, mais avessos ao risco. E há um limite para isso. Você pode se tornar tão conservador, tão avesso ao risco, que fica perigoso demais atravessar a rua. Se você quer atravessar a rua, você precisa pensar: eu quero tanto assim atravessar? Aí administra o risco, vê se o sinal está fechado ou aberto para você, e então faz a travessia mais segura. Mas, mesmo quando ele está aberto, alguém pode vir e te atropelar. E é um risco que você precisa aceitar, senão nunca chegará ao outro lado da rua. Então, sim, eu acho que estamos ficando mais avessos ao risco e mais conservadores, e isso é bom até certo ponto. Mas chega um ponto em que… vai chegar o dia em que vamos a Marte. Será uma missão internacional. Será uma combinação de várias nações. Uma combinação de tecnologia, propriedades intelectuais, capacidades financeiras… será realmente uma missão internacional. Mas vamos ter de aceitar alguns riscos. Teremos de ser audazes. Será uma viagem muito interessante. Isso está a mais uma geração de distância. Mas quando o dia chegar, teremos de nos perguntar: o quanto realmente queremos ir? Quando Vasco da Gama navegou pelos mares, 400, 500 anos atrás, ele tinha garantias?

Você mesmo disse. Na época da Apollo, vocês tiveram de se perguntar: valia a pena o risco? E a resposta foi sim, por causa da Guerra Fria. Mas hoje aparece a pergunta: há vida para a Nasa sem a corrida espacial?
Acho que sim. Lá vem de novo a palavra “cultura”. É inerente à nossa cultura, a cultura do ser humano de querer explorar, de querer compreender, de buscar a próxima fronteira. E eu acho que esse será o impulso. Nós teríamos ido à Lua de qualquer jeito, no fim das contas. A Guerra Fria apenas acelerou o processo. Basta olhar para os exploradores nos últimos 400, 500, 600 anos. Todo mundo queria saber o que havia depois da esquina, no topo da próxima montanha, como é estar lá, como é a vida em Marte. Nós, seres humanos, temos um forte desejo de saber de onde viemos, há vida no espaço profundo, aonde vamos. Temos uma sede, uma sede insaciável por conhecimento, e eu acredito que, mesmo num ritmo mais lento, esse desejo de aprender sobre o desconhecido irá nos guiar para a ilimitada fronteira do Universo, que é o espaço. Nós demos apenas um pequeno passo, para a Lua. Daremos outro pequeno passo, para Marte. E quem sabe para onde iremos depois? Eu não sei.

Apesar dessa sensação, é impossível não contrastar as expectativas com os fatos. Quando você retornou do espaço, em dezembro de 1972, como o “último homem na Lua”, você imaginou que poderia reter esse título até 2010?
Não. Eu nunca pensei, eu previa que estivéssemos a caminho de Marte na virada do século. Meu cronograma está meio desajustado. Eu dizia a todas aquelas crianças de escola, na época das missões a Apollo, que seriam eles que nos levariam a Marte. E nós iremos. Não sei se eu verei acontecer, mas iremos. Mas minha geração pensou que a sua geração iria ter essa oportunidade, e era para inspirar isso que trabalhávamos.

Você foi duas vezes à Lua, a primeira delas na Apollo 10, que foi muito interessante porque vocês quase de fato desceram na superfície, depois subiram novamente, para retornar à Terra, sem pousar. Foi frustrante de algum modo?
Originalmente, na criação do programa Apollo seria a primeira tentativa de pouso. Apollo 7, 8, 9… Apollo 10 era a quarta missão. Mas então as coisas tiveram de mudar, e fomos obrigados a seguir, porque o Módulo Lunar estava atrasado e estava muito pesado, eles precisavam encontrar um meio de cortar peso dele. Então eles decidiram mandar a Apollo 8 para a Lua sem o Módulo Lunar. Não era esse o plano original, a segunda missão já deveria ter todo o equipamento. Então, a Apollo 9 teve o Módulo Lunar em órbita terrestre, e nos ocorreram duas coisas para a missão seguinte: se vamos enviar esses caras até a Lua, colocá-los nessa missão perigosa, por que não os deixamos ir até o final e tentar pousar? Por que assumir o risco, ir tão longe e não deixá-los pousar? E outro grupo disse: bem, vamos deixá-los fazer tudo menos pousar. Vamos aceitar os riscos, executar todos os passos que precedem o pouso e deixar só esse último passo para o próximo voo. E então essa foi a decisão, tomada antes de partirmos. Se eu gostaria de ter estado no primeiro pouso? Claro que sim. Mas do jeito que aconteceu foi melhor, foi uma boa decisão, e para mim isso funcionou ainda melhor, porque eu tive a chance de voltar e comandar a tripulação que eu escolhi, e esse acabou sendo o último voo até a Lua, foi o voo mais longo, o primeiro e único lançamento noturno, que teve uma série de desafios diferentes. Então, em retrospecto, não me arrependo de nada.

Você foi um dos poucos afortunados a não só fazer a viagem até a Lua, mas fazê-lo duas vezes. Cada viagem é diferente?
Na Apollo 17 eu trabalhei com dois caras que nunca tinham ido ao espaço. Então para mim partes do voo eram familiares, mas as partes da aproximação lunar foram completamente diferentes. E, mesmo que você tenha feito isso antes, toda vez é a primeira vez. E, claro, do momento que começamos a descer à Lua aos três dias que vivemos na Lua, isso foi uma experiência totalmente diferente.

Três dias praticamente inteiros vivendo na superfície da Lua. Como foi a sensação de partir?
Ah, eu fiquei desapontado. Nós gostaríamos de ficar mais tempo. As coisas estavam indo bem, mas algumas vezes é quando as coisas estão bem que é hora de partir. Sabe, não tínhamos eletricidade suficiente, não tínhamos oxigênio suficiente… talvez tivéssemos para ficar mais um dia, mas o plano era de 72 horas, e funcionou bem. Você não pode discutir com o sucesso. Talvez, se tivéssemos ficado mais um dia, as coisas poderiam ter saído errado. Foi a decisão certa. E deixe-me dizer isso. A coisa não termina quando partimos. Ao sair da superfície, você precisa chegar à órbita lunar. E se você tem um incêndio antes de chegar lá? E quando você se encontra com a nave-mãe em órbita lunar, você ainda precisa conseguir sair de lá e pegar o caminho de casa. A satisfação vem quando você, primeiro, atinge a nave-mãe e, depois, quando você parte de volta para casa, ajusta o curso para reentrar na atmosfera e, a partir daí, não há muito mais que você possa fazer, além de esperar. Aí é que você tem uma sensação de gratificação, de satisfação. Eu tinha a responsabilidade, como comandante do voo, de obter sucesso, de voltar para casa vivo, e nós fizemos tudo isso. Eu tive imenso orgulho e satisfação pelo que nós conseguimos fazer.

Muitos astronautas das missões Apollo reportaram que estiveram tão ocupados executando tarefas, que tinham tanto com que se preocupar, que não tinham tempo de refletir sobre a experiência de estar na Lua. Como foi para você?
Se você avaliar pelas filmagens que fizemos, a Apollo 17 foi acusada de ter sido a missão em que nós mais nos divertimos na Lua. Nós dissemos e fizemos muitas coisas, conseguimos realizar muitas coisas, fizemos tudo que precisávamos fazer, todos os experimentos, mas nos divertimos também. E trouxemos muitos resultados de geologia. Mas eu disse aos meus dois colegas: “Vocês só vão vir pra esses lados uma vez. Portanto, aproveitem. Apreciem o momento. Não se preocupem com a questão de se vocês vão ou não voltar para casa. Apreciem o momento. Muitas pessoas dizem: você pousa na Lua, você se fecha, e a única preocupação que você tem é se vai voltar para casa. O negócio é deixar para pensar isso durante a viagem de volta. Quando você está na Lua, você tem de aproveitar o momento. Na hora em que tivermos de iniciar o retorno, esse é o instante certo para fazer uma pequena oração. Não antes, OK? Então aproveitem.” E foi o que fizemos. Mas preciso dizer que em todos os meus voos, incluindo meu voo na Gemini, todos os três voos espaciais que fiz, você fica tão ocupado, o tempo é seu maior amigo, porque ele te deu a oportunidade de estar lá, mas é também seu maior inimigo, porque você não tem o suficiente dele. E trabalhar em gravidade zero, trabalhar na superfície da Lua, você sempre está com as mãos cheias. Você nunca consegue um tempinho para recuperar o fôlego. Nós gostávamos do que fazíamos, mas estávamos trabalhando feito loucos lá em cima. Claro, você olha para fora, vê a Terra lá fora e se pergunta: “Eu estou mesmo aqui? Isso é real?”, mas você não fica lá parado, sentado, pensando na vida. E, quando eu fui escalado para o meu voo na Gemini, fui o segundo americano a caminhar no espaço, foi uma experiência incrível, porque cometemos uma série de erros, eu fiquei lá fora durante 2,5 a 3 horas, mas essa é outra história. O fato é que eu nunca tive tempo de pensar muito a respeito. Depois que eu voltei para a Terra e fiz o “debriefing” da missão, fui escalado para ser astronauta reserva em outro voo e, quando aquele voo partiu, eu fui chamado para treinar para outro voo. E quando voltei daquele voo, fui reserva de outro, e assim por diante. E você nunca tem tempo de olhar por sobre o ombro e compreender o que acabou de fazer. Nunca tive chance de pensar sobre a Apollo 10, porque dali eu passei a ser reserva do comandante da Apollo 14. Eu precisava trabalhar na Apollo 14. E quando a missão passou, eu fui escalado como comandante da Apollo 17. Levou 25 anos para que alguém me convencesse a escrever um livro. E eu fiz isso, dez anos atrás, e fiquei feliz de ter feito isso, porque finalmente me deu tempo de olhar para trás e refletir sobre o que se passou.

Vamos agora voltar nosso olhar para o futuro do programa espacial, porque você tem se mostrado muito ativo sobre esse assunto recentemente.
Sim, estou bastante preocupado, mas também bastante confiante.

Queria que olhássemos o quadro mais amplo, porque não é simplesmente a decisão de Barack Obama de cancelar o Projeto Constellation, de retorno à Lua, mas o fato de que, desde a criação do ônibus espacial, nenhum presidente conseguiu estabelecer um programa tripulado que foi levado até o fim. Ronald Reagan tentou com a Estação Espacial Freedom, que acabou cancelada; George Bush, o pai, criou uma meta de irmos a Marte, que foi cancelada mais tarde; depois, George Bush, o filho, criou a visão de exploração que previa um retorno à Lua, e agora isso também ficou pelo caminho…
Ainda não ficou pelo caminho. Mas eu sei do que você está falando. Agora veja: da Estação Espacial Freedom veio a Estação Espacial Internacional, que, pense, embora não vá a lugar algum, é provavelmente o mais incrível feito de engenharia na história do homem moderno – uma estrutura daquele tamanho, construída e montada inteiramente no espaço. Se eu quero viver seis meses na estação espacial? Não. Porque eu já estive na Lua. Depois que você esteve na Lua, ficar em casa não basta. Agora, ela é um recurso extremamente valioso para a comunidade científica? Sim. Nós nunca saberemos o que teremos de volta em termos de ciência até que façamos tudo isso, e a microgravidade é um recurso tremendamente importante, por isso considero importante que a mantenhamos lá em cima. Mas eu também acredito que precisamos do que você estava falando: uma meta mais agressiva. Algo como decidir que iremos a Marte, e no caminho para Marte provavelmente voltaremos à Lua, para realizar diversas coisas que não tivemos chance de fazer na primeira vez em que estivemos lá. E no caminho também provavelmente visitaremos um asteroide ou algo do tipo. E as coisas parecem confusas agora, mas você vai ver, provavelmente antes do fim do ano, que sairemos com uma meta clara e produtiva de longo alcance. Não podemos voltar as costas para o nosso futuro. Você não pode virar as costas para a exploração. Essa é a essência do programa espacial. Kennedy disse, quase 50 anos atrás, nós vamos para a Lua e “vamos fazer as outras coisas”. Agora é a hora de fazer as outras coisas, e acho que você verá um comprometimento de fazermos algumas dessas outras coisas para alcançar além da órbita terrestre baixa. E, como eu disse, quanto mais avançarmos, mais internacional os projetos se tornarão.

E com relação a essa divergência – e parece haver muita confusão sobre isso – entre uma iniciativa comandada pela Nasa ou uma com foco no lado comercial. Não é o caso de termos ambas?
Sim. Um esquema extremamente comercial, com acesso à órbita terrestre baixa, ainda vai levar de 8 a 10 anos para se estabelecer. Por isso, ao menos por ora, a Nasa precisa ser a gerente desses programas de alto risco. Mas veja só: a Nasa nunca construiu uma espaçonave. A indústria americana sim: Rockwell, McDonell, Lockheed Martin, Boeing, essas são as entidades que constroem as naves espaciais em conjunto com o gerenciamento da Nasa. Então, o setor comercial já está construindo espaçonaves hoje! A diferença é que a parceria é um pouco diferente. Algum dia, no fim da década, você verá empresas controlando tudo. Mas neste momento há apenas um comprador: o governo dos Estados Unidos. Então, até que o mercado se abra, ou eles ganhem mais experiência no que estão fazendo, será preciso conduzi-los.

É possível que os chineses consigam chegar lá antes dos americanos?
Eu acho que os chineses estão muito comprometidos. Voltamos à questão da cultura. Eles têm uma cultura de que, uma vez que se comprometam… nós somos impacientes, queremos fazer tudo amanhã. Os chineses dizem, nós vamos fazer, mas pode levar uns dez anos. E você verá os chineses, ao longo do tempo, caminhando nesta direção. Eles percebem a importância da exploração espacial. A estação espacial é a aplicação do espaço. Voltar para a Lua e ir a Marte é exploração do espaço. Eu acho que os chineses estão comprometidos com a exploração. Mas também os Estados Unidos.

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