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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Então, lembra a estrela Ross 128? Não eram ETs

Por Salvador Nogueira

Mais uma edição do imprevisível bingo da busca por inteligência extraterrestre chega ao fim, de novo sem ganhador. Após novas observações e uma análise das circunstâncias, os cientistas ligados ao radiotelescópio de Arecibo, em Porto Rico, concluíram que o sinal que parecia emanar da estrela Ross 128, a 11 anos-luz de distância, era mesmo artificial… mas proveniente de satélites em volta da Terra.

Os pesquisadores batizaram o sinal de “Weird!” (esquisito) e estavam ansiosos por encontrar um novo fenômeno astrofísico (como já aconteceu tantas outras vezes com sinais estranhos, como na descoberta de pulsares, quasares e disparos rápidos de rádio). Em vez disso, o que eles encontraram foi uma região do céu com grande concentração de satélites geoestacionários.

Ficou decepcionado? Os cientistas também. Mas é o preço de viver numa época em que acompanhamos a ciência em “tempo real”. Nem tudo que parece promissor no começo da semana acaba com uma descoberta, e muitas vezes tudo não passa de um engano.

“Após uma cuidadosa análise das observações realizadas no último domingo no Observatório de Arecibo, junto com o SETI Berkeley no Telescópio de Green Bank e com o ATA do Instituto SETI, agora temos confiança sobre a origem do sinal ‘Weird!'”, escreveu Abel Mendez, da Universidade de Porto Rico. “A melhor explicação é que os sinais são transmissões de um ou mais satélites geoestacionários. Isso explica por que os sinais estavam dentro das frequências de satélite e só apareciam e persistiam em Ross 128; a estrela está próxima ao equador celeste em que muitos satélites geoestacionários estão localizados.”

Ross 128, em laranja, em meio a um mar de satélites geoestacionários. (Crédito: Breakthrough Listen)

Isso ainda deixa alguns pontos de interrogação na cabeça dos cientistas, mas encaminha a questão para uma solução bem trivial. “Essa hipótese ainda não explica os fortes traços de dispersão dos sinais; contudo, é possível que múltiplas reflexões causassem essas distorções, mas precisaremos de mais tempo para explorar esta e outras possibilidades.”

O desfecho está alinhado com uma das três hipóteses mais prováveis levantadas de saída pelos cientistas (nenhuma das quais era comunicação de inteligência extraterrestre), mas ajudou a revelar algo sobre a própria psique humana e sua tendência a, por vezes, abraçar hipóteses menos prováveis e mais atraentes.

Isso porque, surpresos pelo enorme interesse pelo sinal, ao longo da semana, os pesquisadores liderados por Mendez realizaram uma pequena enquete com cerca de 800 pessoas, dentre elas mais de 60 astrônomos.

A pergunta feita a elas foi: “O que você acha que é?”, e dez respostas possíveis estavam à disposição: (1) atividade estelar, (2) outra fonte astronômica, (3) um satélite, (4) interferência local, (5) falha instrumental, (6) erro na aquisição dos dados, (7) erro no processamento ou calibração dos dados, (8) padrão no ruído, (9) sinais alienígenas e (10) outra explicação. Para cada uma dessas opções, era preciso assinalar “quase certeza”, “altamente provável”, “improvável”, “muito improvável” e “apenas nos sonhos mais loucos”.

Os resultados da enquete feita pela equipe de Abel Mendez, da Universidade de Porto Rico. (Crédito: Abel Mendez/UPR)

Os resultados foram interessantes. De forma geral, a maioria das respostas se alinharam em torno das opções 1 e 2, que colocavam o sinal como uma potencial descoberta astronômica. Essas respostas, contudo, eram mais cautelosas, e se concentravam em torno da resposta “altamente provável”.

Em compensação, vimos uma resposta significativa na alternativa 9, sinais alienígenas. Ela foi a que teve o maior número de respostas na linha “quase certeza” — mais de 125. No geral, cerca de um quarto dos participantes achavam que a explicação mais provável era:

(Você sabe qual é a legenda deste meme.)

Um número ainda maior, contudo, considerava que essa hipótese só seria correta “nos sonhos mais loucos”.

“Embora nós não necessariamente compartilhemos qualquer dessas opiniões, esses resultados refletem as expectativas ainda altas que o público mantém da possibilidade de contatar inteligência extraterrestre”, escreveu Mendez.

Bem, como esperado, não foi desta vez. Mas ninguém está desistindo.

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