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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Cassini continua a tirar o fôlego dos terráqueos

Por Salvador Nogueira

Antes de mais nada, pare o que quer que você esteja fazendo, respire fundo, e perca algum tempo olhando para esta imagem. Isto é Saturno, visto de perto pela venerável sonda Cassini, que está completando suas últimas voltas antes de um mergulho fatal na atmosfera do segundo maior planeta do Sistema Solar, em 15 de setembro.

A imagem revela os anéis de Saturno como seriam vistos de uma perspectiva interna ao planeta e ainda mostra a névoa que recobre o céu azul da alta atmosfera saturnina. Capturada no dia 16 de julho, a imagem foi obtida pela Cassini quando ela estava a 1,25 milhão de km do planeta, já se afastando após mais um sobrevoo rasante através do vão entre os anéis e o gigante gasoso.

As cores não são exatamente as que nossos olhos veriam. Para realçá-las, a imagem faz uso de três filtros, dos vários disponíveis à Cassini para suas investigações científicas. Dois são de fato cores que enxergamos, verde e vermelho. Mas, para o lugar do azul, os cientistas usaram o filtro de ultravioleta. Então, tecnicamente, a imagem é dois terços cor real, um terço falsa cor. E 100% espetacular.

A imagem veio no último relatório ao público preparado pela equipe de comunicação do JPL (Laboratório de Propulsão a Jato) para informar das últimas descobertas feita pela sonda durante esta etapa derradeira da missão, o Grand Finale.

E, até agora, o que eles descobriram foi… complicado.

O campo magnético do planeta parece estar absurdamente alinhado com o eixo de rotação, algo que, segundo modelos teóricos, não deveria acontecer. Além de inviabilizar a medição do giro interno do planeta, o resultado parece desafiar nossas explicações de como o campo magnético no interior de Saturno é gerado. Os cientistas ainda não abandonaram suas ideias anteriores, mas esperam reunir mais dados até o final da missão para descobrir o que estão detectando e, com isso, decifrar como o planeta produz sua magnetosfera e qual é sua rotação real, obscurecida pelo fato de que a atmosfera superior — tudo que vemos do lado de fora — gira em velocidades diferentes em lugares diferentes.

Os resultados das medições de gravidade também apresentam dados intrigantes, aparentemente inconsistentes com o que se esperava da estrutura interna do planeta — a exemplo do que aconteceu com a Juno em Júpiter. Aparentemente, sabemos menos sobre como planetas gigantes se organizam internamente do que julgávamos antes, e tanto a Cassini como a Juno nos permitirão dar um salto significativo nessa compreensão no futuro próximo.

Por fim, o pessoal do JPL informou que a Cassini conseguiu colher amostras de partículas do anel D, o mais interno de Saturno, o que permitirá investigar sua composição. Imagens das câmeras também revelaram texturas no anel C, que ajudarão a decifrar sua estrutura e composição.

Estranhas texturas observadas pela Cassini no anel C, de Saturno. (Crédito: Nasa)

Por fim, a sonda também deu uma “cheirada” na exosfera — a camada mais alta e rarefeita da atmosfera do planeta — com seu espectrômetro, o que permitirá determinar em detalhes que gases a compõem. Essas medições, claro, terão seu ponto mais alto quando a sonda mergulhar no planeta, mandando dados da composição até perder o apontamento de sua antena com a Terra e queimar como uma estrela cadente saturnina, em 15 de setembro.

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