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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Astrônomos descobrem anel em ‘primo’ de Plutão

Por Salvador Nogueira

O planeta anão Haumea, que já era um dos objetos mais interessantes localizado nas profundezas do Sistema Solar, acaba de ficar ainda mais curioso. Um grupo internacional de astrônomos, com participação brasileira, descobriu que ele é maior do que se pensava — com diâmetro máximo similar ao de Plutão — e, ainda por cima, possui um anel ao seu redor!

Haumea é um membro do cinturão de Kuiper — a região do nosso sistema planetário que fica além de Netuno e é povoada por diversos objetos de pequeno porte, quase como um repositório de cometas, e alguns planetas anões, dos quais o mais famoso é Plutão.

Estudar um objeto desses em detalhe a partir de observações da Terra é extremamente complicado. Mesmo o Telescópio Espacial Hubble oferece pouca ajuda nesse sentido, como pudemos ver recentemente com o sobrevoo da sonda New Horizons pelo sistema plutoniano. Ele deixou de ser meia dúzia de pixels indistintos para se tornar um mundo ativo e intrigante.

Mesmo com essas limitações, Haumea já se mostrava um mundo intrigante aos telescópios. O modo como ele reflete a luz solar já indicava que se trata de um objeto com rápida rotação e uma forma alongada, similar à de uma bola de futebol americano. Era tudo muito estranho.

O segredo para obter mais informações sobre ele foi se aproveitar de um fenômeno que iria acontecer em 21 de janeiro de 2017 — Haumea iria transitar à frente da estrela URAT1 533-182543. Num momento como esse, em que o objeto faz uma chamada ocultação estelar, é possível usar o aparecimento e o desaparecimento da estrela (com o tempo decorrente entre uma coisa e outra) como referência para identificar, por exemplo, o tamanho do astro e a possível presença de uma atmosfera.

Pois bem. Uma vasta equipe com 12 diferentes telescópios em 10 laboratórios espalhados pela região de onde a ocultação seria visível, concentrada na Europa. Dados foram colhidos na Eslováquia, Hungria, República Tcheca, Eslovênia, Alemanha e Itália. E, com eles, uma nova compreensão do intrigante Haumea.

O trabalho, publicado na edição desta semana da revista “Nature”, teve a liderança de José Luis Ortiz, do Instituto de Astrofísica de Andaluzia, em Granada (Espanha), e participação de astrônomos brasileiros do Observatório Nacional, no Rio de Janeiro, e da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), em Curitiba.

Concepção artística de Haumea e seu anel (Crédito: IAA-CSIC/UHU)

UM ANEL
O achado mais surpreendente foi a descoberta de um anel relativamente grande, com uns 70 km de largura, e diâmetro de aproximadamente 4.600 km. Ele está alinhado com o equador de Haumea, que por sua vez tem um diâmetro equatorial máximo de pelo menos 2.322 km. Plutão, lembremos, tem um diâmetro de 2.374 km. E, a despeito dessa medida similar de largura máxima, ele continua sendo bem maior que Haumea. (Lembre-se do formato de bola de futebol americano. No menor eixo medido pelos pesquisadores com a ocultação, o diâmetro seria de apenas 1.138 km, o que dá uma boa medida do formato estranho desse planeta anão.)

A descoberta de um anel reforça a hipótese de que essas formações são comuns mesmo entre objetos menores do Sistema Solar exterior. Há tempos sabemos que todos os planetas gigantes (Júpiter, Saturno, Urano e Netuno) têm anéis, mas uma descoberta feita em 2013 (e anunciada em 2014) já deu a entender que pequenos astros também podem ter os seus. O astrônomo brasileiro Felipe Braga-Ribas liderou o achado de dois anéis ao redor de Cáriclo (ou Chariklo), um objeto residente entre as órbitas de Saturno e Urano que pertence a uma população conhecida como centauros.

“Depois da descoberta dos anéis de Chariklo em 2013, criamos a expectativa de que encontraríamos anéis entre os centauros”, diz Braga-Ribas, que é pesquisador da UTFPR e co-autor da descoberta em Haumea. “Agora vimos que um objeto dez vezes maior e bem mais distante possui anéis, o que leva a pensar que muitos outros podem tê-los.”

Comparação entre Cáriclo, Haumea e Plutão (Crédito: Alexandre Crispim/UTFPR)

DENSIDADE
Outra determinação importante que a pesquisa conseguiu fazer é sobre a densidade de Haumea. A densidade, que dá boas pistas da composição e da estrutura interna de objetos celestes, nada mais é que um cálculo simples da massa (a quantidade de matéria presente) dividida pelo volume (o espaço que ela ocupa).

A massa de Haumea já era conhecida graças à presença de duas luas ao redor dele, Hi’iaka e Namaka — ambos descobertos em 2005, pouco tempo depois do próprio planeta anão. Como as órbitas das luas são ditadas pela lei da gravidade, que por sua vez se relaciona diretamente com a massa, torna-se simples descobrir esse pedaço.

O volume, por sua vez, é outra história. Somente agora, com a ocultação (que, mais uma vez, explora o movimento induzido pela gravidade no objeto, mas desta vez o de translação ao redor do Sol, conforme ele transita à frente da estrela), foi possível determinar suas dimensões com maior precisão. (Até então, tudo que se podia fazer era tentar estimar o tamanho com base no brilho, o que é bastante incerto se você não sabe direito o quanto a superfície reflete a luz que chega do Sol. Um objeto incomumente escuro pareceria menor do que é; um incomumente claro pareceria maior.)

E aí, com volume e massa devidamente definidos, foi possível calcular a densidade, que veio com certo alívio para os cientistas. Haumea tem no máximo 1.885 kg por metro cúbico — menos do que antes se estimava (afinal, o tamanho dele se revelou maior do que se estimava) e mais alinhado com a densidade de seu vizinho famoso, Plutão (1.860 kg por metro cúbico).

Contudo, enquanto Plutão leva 6,3 dias para completar uma volta em torno de seu eixo, Haumea leva só 3,9 horas!

É um bocado rápido para um corpo tão grande, e os cientistas acreditam que ela é parte da história que explica o formato incomum e a origem das luas e do anel de Haumea. “Possivelmente as colisões que deram origem à família de Haumea deixaram como assinatura a elevada rotação.”

Claro, a história exata dessas colisões, assim como a evolução dinâmica do sistema, ainda está por ser contada. Os novos resultados, por mais que elevem nossos conhecimentos de Haumea, são tanto um ponto de chegada quanto um ponto de partida. Diz Braga-Ribas: “Como toda surpreendente descoberta, muitas questões são respondidas, porém muitas outras perguntas aparecem, sempre promovendo o avanço do conhecimento.”

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