Objeto interestelar deve ter sido lasca de astro similar a Plutão, dizem estudos

O mistério da natureza do primeiro objeto interestelar, ‘Oumuamua, parece estar bem perto de um desfecho. Uma dupla de astrônomos da Universidade Estadual do Arizona (EUA) encontrou uma hipótese natural para explicar todas as peculiaridades observadas no astro que cruzou rapidamente o Sistema Solar em 2017.

Quando descoberto, ele de início pareceu ser um asteroide, mas com coloração avermelhada, similar à encontrada em objetos das profundezas do Sistema Solar. Em sua breve passagem, o astro sofreu um desvio de trajetória que parecia indicar a ejeção de gases na aproximação com o Sol, ação comum para cometas. Contudo, nenhuma evidência dessa sublimação de gases, que em cometas forma as famosas caudas, foi observada.

Nada parecia se encaixar de forma exata às parcas observações. Para explicá-lo, chegaram até a aventar uma peculiar composição de gelo de hidrogênio, algo jamais visto antes e difícil de imaginar mesmo teoricamente, sem sucesso. Essas discrepâncias fizeram com que Abraham Loeb, diretor do departamento de astronomia de Harvard, defendesse que se tratava de uma nave extraterrestre.

Agora, Alan Jackson e Steven Desch deram um passo decisivo para matar a charada: em um par de artigos publicados no Journal of Geophysical Research: Planets, eles juntam todas as peças para explicar o que pode ter sido o ‘Oumuamua e reconstituir sua história pregressa.

Ao que tudo indica, estamos falando de um pequeno pedaço de um astro como Plutão, mas vindo de um sistema planetário jovem. Uma colisão, uns 400 milhões de anos atrás, teria ejetado o objeto, feito de gelo de nitrogênio quase puro (material comum na superfície plutoniana), dando a ele a velocidade característica com que foi visto entrando no Sistema Solar.

Sua aproximação do Sol o fez perder muito de seu material original, sublimado para o espaço. Esse desgaste foi deixando-o cada vez mais num formato de uma bolacha, fino em uma das dimensões (da mesma forma que um sabonete se desgasta de forma desigual ao ser usado múltiplas vezes). Isso explica os padrões de rotação e de variação de brilho observados.

Quando os astrônomos conseguiram vê-lo, já de saída, em outubro e novembro de 2017, ele já tinha essa forma bem peculiar, como uma bolacha redonda de 45 m de diâmetro por 7,5 m de espessura. A perda de matéria ajuda a explicar seu desvio de trajetória, e o fato de a composição ser nitrogênio indica por que esse processo não foi detectado. A presença de pequena quantidade de metano, também comum em Plutão, poderia explicar sua coloração vermelha. Tudo se encaixa.

Então, esse é o fim da história? Bem, ainda não. Para confirmar de vez a hipótese, será importante observar outros objetos como ele nu futuro. Apesar disso, pela primeira vez a solução do mistério parece bem encaminhada.

Esta coluna é publicada às segundas-feiras, na Folha Corrida.

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