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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Hubble faz observação recorrente de plumas de água em Europa, a lua-oceano de Júpiter

Por Salvador Nogueira

Eram plumas.

Essa era barbada, conforme antecipada pelo Mensageiro Sideral na semana passada, quando a Nasa informou que faria uma coletiva para detalhar novos resultados obtidos com o Hubble da lua joviana Europa. Mas os detalhes ainda assim são surpreendentes.

Os pesquisadores usaram o venerável telescópio espacial para observar o pequeno satélite natural conforme ele realizada um trânsito à frente de Júpiter. Dos dez trânsitos vistos, ao longo de respeitáveis 15 meses, evidências de jatos de água emanando da superfície apareceram como silhuetas em três ocasiões, em 26 de janeiro, 17 de março e 4 de abril de 2014. Isso parece indicar de forma conclusiva que as plumas — indicadas pela primeira vez num estudo divulgado em 2013 — são intermitentes. Na prática, isso sugere que uma missão orbital poderá estudar o conteúdo do oceano global que se esconde sob a superfície de Europa sem precisar pousar. É uma *grande* coisa.

Plumas de Europa vistas pelo Telescópio Espacial Hubble em três ocasiões (Crédito: Nasa)
Plumas de Europa vistas pelo Telescópio Espacial Hubble em três ocasiões (Crédito: Nasa)

Os cientistas ainda não são capazes de afirmar com absoluta certeza que são mesmo plumas de água. “Estamos trabalhando no limite da capacidade do Hubble e com comprimentos de onda que não são fáceis de interpretar”, disse William Sparks, astrônomo que trabalha com o telescópio espacial. “Mas não conseguimos imaginar o que poderia gerar esse falso positivo.”

Na real, eles não conhecem nenhum outro fenômeno natural que pudesse explicar as observações. A cautela tem a ver basicamente com o método de observação, que consistiu em colher cada fóton que chegava ao instrumento de ultravioleta do Hubble e então usar muito processamento de software para transformá-lo em imagens consistentes. É isso, inclusive, que explica o tempo que levou entre fazer as observações, em 2014, e publicar os resultados. Segundo Sparks, há dois outros trânsitos que foram observados e que devem ser reportados no futuro próximo.

Esquema de observação de Europa durante um trânsito de Júpiter, com suas possíveis plumas (Crédito: Nasa)
Esquema de observação de Europa durante um trânsito de Júpiter, com suas possíveis plumas (Crédito: Nasa)

É significativo que o novo trabalho tenha chegado à mesma conclusão da equipe liderada por Lorenz Roth em 2013 (com base em observações de 2012). Embora os dois grupos tenham usado dados colhidos pelo mesmo instrumento do Hubble, o STIS, os métodos para processar esses dados foram completamente diferentes. “Antes nós tínhamos uma evidência, agora temos mais um punhado delas”, disse Spark.

Em todos os casos, as plumas parecem emanar da região polar sul de Europa e atingir alturas de cerca de 200 km, antes de caírem de volta à superfície. Seriam precisos vários milhares de toneladas de água para formá-las. E elas têm toda a pinta de um fenômeno recorrente e ligado a uma região específica da lua — a exemplo do que ocorre em Encélado, a pequena lua de Saturno que, já sabemos, além de um oceano sob a crosta de gelo, também tem plumas de água observadas e estudadas pela sonda Cassini.

IMPLICAÇÕES
Os resultados são especialmente importantes para a equipe que está planejando a próxima missão da Nasa a Júpiter, uma sonda não-tripulada cujo principal objetivo é observar e caracterizar Europa. Ela deve partir no começo da década de 2020.

Embora o sucesso da missão não dependa da existência dessas plumas, ter a chance de analisar conteúdo do oceano subterrâneo sem precisar escavar diversos quilômetros de gelo é um enorme “plus a mais”. Curt Niebur, cientista do programa de Europa no Quartel-General da Nasa, foi bastante acionado durante a coletiva desta segunda-feira (26) para falar dessas perspectivas.

“Nós teremos nove instrumentos a bordo, todos eles poderosas ferramentas na análise de plumas, além de seu objetivo científico primário”, disse.

Entretanto, é importante lembrar que a sonda não estará em órbita de Europa, mas sim fará sobrevoos constantes sobre a lua, mantendo-se em órbita de Júpiter. Trata-se de uma estratégia para minimizar os impactos da forte radiação sobre a sonda, mas que restringe os momentos em que a espaçonave estará apta a observar atividade de gêiseres.

“O maior desconhecido desse fenômeno é entender sua frequência”, disse Niebur. “Quanto mais observações tivermos, mais poderemos entender isso, para planejar e usar isso nos sobrevoos da missão a Europa.”

Além de continuar a usar o Hubble para fazer futuras detecções, os astrônomos pretendem lançar mão futuramente do Telescópio Espacial James Webb, que a Nasa pretende lançar em 2018.

Fora de questão, contudo, está o uso da Juno — sonda que chegou recentemente a Júpiter, mas está focada no estudo do planeta gigante em si, e não do seu sistema de luas. Além de não ter instrumentos adequados para observar as plumas de Europa, a sonda passa sempre bem longe dali. “A Juno está focada em Júpiter”, disse Niebur “e nos esforçamos muito para a Juno não chegar perto de Europa, porque queríamos evitar risco de contaminação.”

A despeito das incertezas, Europa é cada vez mais o alvo preferencial para a busca por vida extraterrestre no Sistema Solar. Vai saber o que se esconde em seu oceano global, sob quilômetros de gelo superficial?

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