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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Novas imagens da sonda Juno em Júpiter deixam cientistas alvoroçados

Por Salvador Nogueira

A épica missão Juno realizou mais uma passagem de raspão por Júpiter no último domingo (11), e a boa notícia é que, desta vez, os instrumentos funcionaram todos à perfeição, conforme a espaçonave passou a pouco mais de 4.000 km do topo das nuvens jovianas. Agora, a ótima notícia é que os cientistas ficaram alvoroçados quando foram apresentados a alguns dos resultados, durante reunião da União Geofísica Americana (AGU), em San Francisco, na terça-feira.

“A JunoCam acabou de flagrar os anéis de Júpiter PELO LADO DE DENTRO”, escreveu Simon Porter, pesquisador do Instituto de Pesquisas do Sudoeste (SwRI), direto do encontro científico, via Twitter. “Oohs e aahs audíveis na sala.”

Para não deixar o público agonizando, o JPL (Laboratório de Propulsão a Jato) da Nasa divulgou no fim da noite de terça uma das imagens do encontro, feita quando a Juno estava a 24.600 km do topo das nuvens jovianas. Nela, podemos ver mais de perto uma das “pérolas” do planeta, uma tempestade que aparece com uma forma oval branca.

Imagem feita pela JunoCam a 24.600 km do topo das nuvens de Júpiter. Crédito: Nasa
Imagem feita pela JunoCam a 24.600 km do topo das nuvens de Júpiter, no dia 11 de dezembro de 2016. (Crédito: Nasa)

A “corrente de pérolas” é uma faixa com diversas dessas ocorrências, localizadas no hemisfério Sul de Júpiter. Monitoradas cuidadosamente desde 1986, elas aparecem e desaparecem, variando em número. Houve tempos em que houve apenas seis delas, e o número máximo observado foi nove. Atualmente, há oito “pérolas”, e a fotografada é a sétima.

Os gerentes da missão começaram a publicar nesta quarta-feira (14) algumas das imagens colhidas nesse mais recente encontro próximo com Júpiter (perijove 3, para os íntimos). Entre elas figuram algumas do momento de máxima aproximação. Veja a seguir a mais interessante dessa fase mais aguda e rápida do voo, a 4.971 km do topo das nuvens.

Imagem feita pela JunoCam a 4.971 km do topo das nuvens de Júpiter, no dia 11 de dezembro de 2016. (Crédito: Nasa)
Imagem feita pela JunoCam a 4.971 km do topo das nuvens de Júpiter, no dia 11 de dezembro de 2016. (Crédito: Nasa)

Imagens similares foram colhidas no perijove 1, mas ali os cientistas ainda experimentavam com a calibragem da câmera, e o resultado foi uma foto que mais lembrava um borrão. Agora, já vemos uma melhora. E deve ficar ainda mais interessante nos próximos encontros, conforme o comportamento da câmera vai sendo mais bem compreendido.

(Um aspecto interessante que torna a missão “à prova de teorias da conspiração” é que a JunoCam é operada em cooperação com voluntários que se inscreveram no site da Juno. Em geral astrônomos amadores, eles ajudam a escolher os alvos de observação durante os perijoves, têm acesso às imagens “cruas” e podem fazer seu próprio processamento delas; as melhores são escolhidas e publicadas no site da missão. Ou seja, não há segredos.)

Resta, contudo, a expectativa pela tão falada imagem processada dos anéis jovianos. Diferentes dos de Saturno, eles são majoritariamente feitos de rocha (em vez de gelo), sendo portanto mais escuros, e são estreitos, o que os torna bem difíceis de observar.

PASSO DE TARTARUGA
Quanto às revelações científicas da missão, que tem por principal objetivo desvendar a estrutura interna do maior planeta do Sistema Solar, teremos de ser pacientes. Isso porque um problema com o sistema de válvulas de combustível fez com que a manobra que reduziria a órbita da Juno de 53 para 14 dias fosse adiada indefinidamente.

Com uma passagem próxima de Júpiter a cada dois meses, praticamente, a coleta de dados será bem mais lenta. Para que se tenha uma ideia, desde que chegou ao planeta gigante, a Juno passou quatro vezes por ele.

Na primeira (perijove 0), fez sua tensa manobra de inserção orbital (transmitida ao vivo pelo Mensageiro Sideral). Na segunda (perijove 1), colheu seus primeiros dados científicos e calibrou os instrumentos para a observação de Júpiter. A terceira (perijove 2) estava destinada à manobra de encurtamento da órbita, que acabou cancelada pelo problema hidráulico. Diante do revés, os cientistas bem que tentaram usar a passagem para observações científicas, mas na hora agá, no dia 19 de outubro, a sonda bugou e entrou em “modo de segurança” (a Nasa nega que o efeito tenha alguma conexão com a prisão de Eduardo Cunha, na mesma data). Eis que chegamos agora à quarta passagem (perijove 3), mas na real apenas a segunda usada para produzir imagens e leituras do planeta. A próxima virá agora só no começo de fevereiro de 2017.

Portanto, meu caro leitor, paciência. Até mesmo para sua esposa Juno o velho Júpiter reluta em revelar seus segredos mais íntimos.

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