Mensageiro Sideral

De onde viemos, onde estamos e para onde vamos

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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Quer saber quantos planetas potencialmente similares à Terra há no Universo observável?

Por Salvador Nogueira

Um grupo de astrônomos na Suécia realizou um estudo para investigar qual é a frequência esperada de planetas similares à Terra, potencialmente habitáveis, no Universo observável. E a estimativa mais conservadora que os pesquisadores conseguiram fazer sugere a existência de aproximadamente 2 x 10^18 potenciais Terras. Você tem ideia de quanto é isso? É o número 2 seguido por 18 zeros. Faço questão de escrever por extenso: 2.000.000.000.000.000.000. Ou, de um jeito que possamos ler em voz alta, 2 bilhões de bilhões de planetas habitáveis.

Nesse cálculo, o estudo, liderado por Erik Zackrisson, da Universidade de Uppsala, na Suécia, e submetido ao “Astrophysical Journal” , se concentrou apenas em sistemas planetários em torno de estrelas similares ao Sol. É, portanto, a pior das hipóteses. E um aspecto interessante do resultado foi a constatação de que, na média, esses mundos são bem mais velhos que a Terra, com cerca de 8 bilhões de anos, e que eles devem ser mais comuns em galáxias maiores e mais pacatas do que na nossa Via Láctea.

Agora, o curioso mesmo é que algumas pessoas com viés criacionista estão interpretando o estudo como um indicativo de que não existe, no Universo inteiro, um único planeta como a Terra. Cuma?

Não é difícil entender de onde veio a trapalhada: de uma interpretação equivocada da sofisticada e correta reportagem publicada no site gringo da revista “Scientific American”, que afirma que o “censo de exoplanetas sugere que a Terra é especial, afinal”. Infelizmente, os picaretas das redes insociáveis (para usar uma expressão cara a meu colega Vinícius Torres Freire) não entenderam (ou não quiseram entender) o que o texto quis dizer com “especial”. (E claro que, com eles, toneladas de veículos de comunicação tradicionais e sites das internets da vida, de forma que você vai achar essa asneira de que a Terra é única em toda parte, a essa altura.)

Primeiro, note que “especial” não equivale a raro, muito menos singular. Quer dizer somente que a Terra não é um planeta mediano, ou seja, não é, em alguns quesitos, representativo da média dos planetas similares a ela. Nosso planeta, por exemplo, tem “apenas” 4,6 bilhões de anos, e com isso é mais novo que a média de sua categoria, estimada pelo estudo em torno de 8,1 bilhões de anos para mundos a orbitar estrelas similares ao Sol (correspondentes aos tipos K, G e F). Mas isso, óbvio, não quer dizer que não existam mundos com idade próxima à da Terra. É claro que existem. Assim como existem mundos ainda mais novos que o nosso (já estamos cansados de observar planetas se formando em torno de estrelas jovens, recém-nascidas) e outros ainda mais velhos que o nosso. Já descobrimos planetas (como os do sistema Kepler-444) que pertencem a uma estrela com estimados 11 bilhões de anos, e a simulação dos pesquisadores suecos sugere que os primeiros planetas rochosos apareceram há 13 bilhões de anos — “apenas” 800 milhões de anos depois do Big Bang!

Concepção artística do sistema Kepler-444, o mais antigo já descoberto (Crédito: Universidade de Birmingham)
Concepção artística do sistema Kepler-444, o mais antigo já descoberto (Crédito: Universidade de Birmingham)

Da mesma maneira, o estudo estima que, se você escolher aleatoriamente um planeta parecido com a Terra, habitável, no Universo, a chance de ele estar dentro de uma galáxia elíptica (que é maior, mais velha e mais tranquila que a Via Láctea) é bem maior do que ele estar numa galáxia espiral como a nossa.

Ou seja, pegando esses dois critérios (idade média ou galáxia a que pertence), podemos dizer que a Terra é um planeta que está fora da média dos mundos de sua categoria. Ou, se você preferir usar o termo do site da “Scientific American”, um planeta “especial”. (Contudo, note que, por esses mesmos critérios, Marte, que nasceu junto com a Terra, também seria “especial”. E não vemos criacionistas marcianos falando asneiras por aí.)

MEDIOCRIDADE EM DEBATE
Certo, já entendemos de onde alguns patetas tiraram a ideia de que o trabalho supostamente suportaria a noção de que a Terra estaria numa espécie de altar divino no Universo. Mas a real discussão nesse caso, e o interesse dos pesquisadores pelas “médias” dos planetas similares, gira em torno do chamado “princípio copernicano”.

Apesar do nome, não foi Copérnico que o inventou. O bom e velho Nicolau apenas nos apontou na direção da ideia, ao sugerir acertadamente que a Terra, assim como os demais planetas do nosso sistema, girava em torno do Sol. Ao extrair nosso mundo do centro do Universo, o astrônomo polonês nos levou a pensar que as circunstâncias da Terra não eram nada especiais. Não por acaso, o princípio copernicano também é conhecido como princípio da mediocridade. Em sua última instância, ele sugere que a Terra é, em todos os sentidos, um planeta medíocre (ou seja, mediano), se comparado a seus “irmãos” no cosmos.

A essa altura da era espacial, o estudo do Sistema Solar já nos mostrou que o princípio copernicano não é absoluto, nem deve ser levado a ferro e fogo. Dentre os oito planetas a girar em torno do Sol, só o nosso é capaz de abrigar água em estado líquido de forma estável na superfície, por exemplo. Nós definitivamente não representamos a média dos planetas do nosso sistema, nesse quesito.

 Os planetas do Sistema Solar e, num grupo à parte, os planetas anões Ceres, Plutão e Éris. Não tem um igual ao outro. (Crédito: IAU)
Os mundos do Sistema Solar, entre planetas e planetas anões. Não tem um igual ao outro. (Crédito: IAU)

Contudo, durante um bom tempo se especulou que o princípio copernicano poderia ser aplicado se comparássemos o Sistema Solar a outros sistemas de planetas espalhados por aí. É exatamente isso que o novo estudo faz, comparando os parâmetros da Terra aos de outros planetas com mais ou menos as mesmas características físicas intrínsecas (mundo rochoso em torno de estrela similar ao Sol localizado em sua zona habitável). E mostra também que o princípio copernicano nesse contexto mais amplo não para em pé. A maioria dos planetas como a Terra é mais velha e está em outro tipo de galáxia.

Certo, e o que isso quer dizer? Nada de muito novo, na verdade. É importante frisar que o princípio copernicano precisa ser encarado exatamente como o que a palavra sugere: um princípio. Ele não é uma lei física que estabelece predições claras e precisas. É mais uma noção genérica de que não há nada que separe a Terra de seu contexto (o resto do Universo). Nessa versão “frouxa”, acho que ele ainda se sustenta muito bem, obrigado. E eu ficaria realmente muito surpreso se a idade da Terra calhasse de ser a idade média dos planetas similares a ela. Já sabemos que há estrelas bem mais antigas que o Sol e planetas bem mais velhos que a Terra. Somos os recém-chegados num Universo que já estava aí muito tempo antes de nós. E essa é a verdadeira moral da história.

O FILÉ DO TRABALHO
O fato de que a Terra é um planeta relativamente jovem no contexto de outros mundos similares abre alguns discussões interessantes. A partir dessa constatação, sabemos que muitos mundos por aí tiveram muito mais tempo para evoluir vida complexa e inteligente do que nós tivemos.

E aí, fica aquela pergunta: onde está esse pessoal todo? Se há 4 bilhões de anos, quando a vida nem existia na recém-formada Terra, já havia mundos como o nosso que estavam, como diriam Milionário e José Rico, nessa longa estrada da vida, das duas uma: ou a vida inteligente é um fenômeno extremamente raro — a ponto de nunca ter surgido antes em nossa galáxia até agora — ou a turma dos alienígenas não é muito animada com a ideia de colonização galáctica. Porque, se fosse, mesmo que somente uma civilização desse tipo tivesse surgido, já teria dado tempo mais do que suficiente para ela ocupar a galáxia inteira.

Certo, e como sabemos que não rolou colonização galáctica? Bem, porque já vimos que não há presença de civilizações extraterrestres em nosso Sistema Solar — ou, pelo menos, se há, ela não é nada óbvia. Até agora, em todos os planetas, luas, asteroides e cometas onde nossas sondas estiveram, não encontramos nenhum sinal de tecnologia alienígena (a não ser que você conte coisas bizarras como aquelas “pirâmides” em Marte).

Por outro lado, quem disse que civilizações avançadas têm de ter essa ambição de colonizar a galáxia inteira? E se civilizações forem extremamente comuns, mas sempre se conduzam à própria extinção antes de sair por aí pela galáxia (como pode muito bem acontecer conosco)? E se os ETs preferirem simplesmente sintonizar no “Big Brother” e ficar em casa, só dando uma espiadinha? (Como, aliás, tentam fazer hoje nossos programas SETI?)

Meu ponto é: pode ser que realmente vida inteligente seja tão rara que não exista ninguém mais lá fora, ao menos em nossa galáxia. E também é possível que existam milhões de civilizações na nossa Via Láctea, que por algum motivo ainda não travaram contato conosco. (Também não vou contar aqui casos de óvnis, embora você seja livre para pensar o que quiser dessas histórias.)

O estudo sueco não faz muito mais para esclarecer essa dúvida. Ele agrega novos fatores à discussão. Abordei recentemente outro estudo que falava de probabilidade de evolução de vida inteligente na Via Láctea e que também violava o princípio copernicano estrito. Ele também trazia outros elementos à discussão. Mas nada que pudéssemos considerar conclusivo para dirimir nossos questionamentos mais elementares acerca de vida no Universo.

Bem, o que fazemos, então? “Senta-e-chora, senta-e-chora, senta-e-chora”? Não, claro que não. Só vamos sair desse impasse por meio de observações sistemáticas. Astronomia observacional da boa. Até umas poucas décadas atrás, havia discussão até sobre se a formação de planetas — quaisquer planetas, de qualquer tipo — era mesmo um evento comum, ou se planetas eram raros no Universo. Desde 1995, temos confirmado a noção de que o cosmos adora fabricar planetas, inclusive muitos que têm tamanho, composição básica e nível de radiação incidindo sobre eles que são similares aos da Terra.

Em breve, passaremos à próxima etapa e poderemos usar dados colhidos por telescópios para compreender se o ambiente que reina em alguns desses planetas de fato guarda semelhança com o que temos por aqui. E então finalmente começaremos a colocar fatos sólidos que possam ajudar a determinar se nosso planeta é de algum modo singular ou se, como eu desconfio desde já, estamos apenas em mais uma das muitas grandes pedras redondas e molhadas que existem por aí no Universo.

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P.S.: Na madrugada, quando eu fiquei sabendo que esse estudo em particular estava sendo chacoalhado aos quatro cantos por gente de reputação menos que respeitável como prova de que a Terra era um planeta singular, fui ler o artigo e, chocado, percebi que ele dizia o oposto do que argumentavam alguns paspalhões. Mas, para não deixar qualquer dúvidas e não permitir que algum safado dissesse que eu é que não entendi nada, resolvi contatar o primeiro autor do estudo, Erik Zackrisson. Eis a nossa curta, mas insofismável, conversa.

Mensageiro Sideral: Eu li seu artigo submetido ao “Astrophysical Journal” sobre planetas terrestres e pretendo escrever a respeito. Mas sinto que suas conclusões estão sendo distorcidas em muito da cobertura jornalística que estou vendo lá fora.

Erik Zackrisson: Sim, de fato!

Mensageiro Sideral: Então queria basicamente checar com você se entendi corretamente quais são suas conclusões. Espero que possa me responder. Seu estudo sugere que a Terra (na condição de um planeta habitável com 4,6 bilhões de anos numa galáxia espiral barrada) não é um planeta terrestre “médio”, no sentido de que um planeta terrestre médio teria cerca de 8 bilhões de anos e estaria numa galáxia elíptica mais evoluída. Então, o princípio copernicano, segundo o qual a Terra é um planeta mediano, não é mantido nesse contexto. Certo?

Zackrisson: Correto.

Mensageiro Sideral: Seu estudo NÃO sugere que a Terra é de algum modo singular, de forma que nenhum outro planeta como a Terra exista, certo?

Zackrisson: De fato não há nada em nosso estudo que sugira que a Terra é única. As manchetes do tipo “Terra é diferente de 700 quintilhões de planetas no Universo” que eu tenho visto voando pela internet parecem ser causadas por um efeito de telefone sem fio, em que jornalistas e blogueiros largamente copiam e colam uns aos outros, adicionando pequenas variações para efeito de sensacionalismo. O conteúdo original foi distorcido bem depressa, parece. 🙂

Mensageiro Sideral: Como você acha que os seus resultados impactam a busca por planetas similares à Terra em nossa vizinhança estelar?

Zackrisson: Não muito — é mais o caminho inverso: nós pegamos o que as buscas de exoplanetas em nossa vizinhança nos ensinaram, e a aplicamos a escalas maiores (no espaço e, até certo ponto, no tempo). Nós não podemos ditar realmente nada de novo sobre o volume local.

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