Mensageiro Sideral

De onde viemos, onde estamos e para onde vamos

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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Top Ten do Mensageiro Sideral, 2014

Por Salvador Nogueira

Estamos prestes a completar mais uma volta em torno do Sol a bordo da aconchegante espaçonave Terra. Como sempre, uma boa oportunidade para o já tradicional Top Ten do Mensageiro Sideral, onde relembramos, em ordem crescente de importância, as notícias espaciais mais bombásticas do ano que passou. Tem tristeza, tem alegria, mas acima de tudo tem a obstinação humana em busca de seu lugar no cosmos. Confira.

10- Ronaldo Mourão se junta ao cosmos

O astrônomo Ronaldo Mourão (1935-2014), em 2009, na Universidade Federal de Juiz de Fora (MG)
O astrônomo Ronaldo Mourão (1935-2014), em 2009, na Universidade Federal de Juiz de Fora (MG)

Em 25 de julho de 2014, o Brasil perdeu um de seus maiores divulgadores e popularizadores da ciência. Morreu, aos 79 anos, no Rio de Janeiro, Ronaldo Rogério de Freitas Mourão. O astrônomo influenciou várias gerações de cientistas e amadores, cativando-as com sua prosa charmosa e sua inabalável dedicação à transmissão da “mensagem das estrelas”. A biografia de Mourão nunca foi livre de polêmicas, mas ninguém pode negar sua contribuição à popularização da astronomia no Brasil. Sua ausência certamente será bastante sentida nos próximos anos, que prometem ser os mais empolgantes da história na exploração dos mistérios do Universo.

9- Ensaio para a volta ao espaço profundo

Retorno da cápsula Órion no oceano Pacífico, após histórico voo de teste.
Retorno da cápsula Órion no oceano Pacífico, após histórico voo de teste.

Em 5 de dezembro, com um dia de atraso, aconteceu um lançamento marcante para o futuro do programa espacial americano: pela primeira vez, uma cápsula Órion foi ao espaço. Foram apenas duas voltas ao redor da Terra, e sem tripulação, mas pela primeira vez desde 1972 uma espaçonave destinada a transportar humanos foi além da órbita terrestre baixa. A ideia é que, na próxima década, a Órion sirva como veículo para viagens em torno da Lua e até um asteroide — tudo isso é tido pela Nasa como preparação para o objetivo final, uma missão tripulada a Marte. Com o primeiro lançamento da Órion, os americanos saem na frente. Mas ninguém deve pensar que eles estarão sozinhos nisso.

8- Chineses focados na conquista da Lua

Imagem da sonda chinesa C5-T1. Aquele planetinha ali ao fundo somos nós.
Imagem da sonda chinesa C5-T1. Aquele planetinha ali ao fundo somos nós.

Os chineses a essa altura não escondem mais sua ambição de reprisar todos os grandes sucessos obtidos por americanos e russos durante a corrida espacial, inclusive envolvendo missões tripuladas à Lua. No fim de 2013, eles já causaram espanto global ao conseguir pousar com sucesso um jipe robótico na Lua. E neste ano eles pela primeira vez enviaram uma sonda para contornar a Lua e retornar à Terra em segurança — tecnologia essencial para o futuro envio de astronautas. A essa altura, com seus passos calculados e precisos, os chineses já ameaçam tomar a dianteira na exploração espacial a partir da próxima década. Até mesmo Buzz Aldrin, o segundo homem a pisar na Lua, acha que é preciso que os americanos mudem de atitude e passem a cooperar com os chineses. Os próximos anos prometem ser ainda mais interessantes.

7- Agora foi! CBERS-4 em órbita

Imagem da câmera brasileira WFI, a bordo do CBERS-4, fotografa a Amazônia.
Imagem da câmera brasileira WFI, a bordo do CBERS-4, fotografa a Amazônia.

Depois do fiasco ocorrido no fim de 2013, quando um foguete Longa Marcha-4B fracassou em colocar o satélite sino-brasileiro CBERS-3, brasileiros e chineses aceleraram o desenvolvimento do próximo sátelite da série. A despeito dos riscos envolvidos, o esforço deu certo e, em 7 de dezembro, o CBERS-4 foi colocado em órbita da Terra. Já há acordo para lançar, em três anos, um novo satélite conjunto, CBERS-4A, além de discussões para estender o projeto até o 5 e o 6. Trata-se de um recurso importante para o Brasil, para monitoramento de seu território, além de impulsionar o desenvolvimento de tecnologia espacial de ponta. Congratulações a todos os envolvidos nos dois países. Mas, cá para nós, não podemos viver apenas de CBERS. O sucesso solitário dele só reforça quão pouco avançamos em outros segmentos do nosso programa espacial. Falta ambição, atualidade e vontade política. Pequenas conquistas merecem menção, como o lançamento bem-sucedido do cubesat NanoSatC-Br1 e do foguete suborbital VS-30 com estágio de propulsão líquida. Mas é muito pouco para o Brasil. Estamos tomando um baile da nossa vizinha Argentina. E pensar que, uma dúzia de anos atrás, engenheiros aeroespaciais hermanos manifestavam ao Mensageiro Sideral admiração pelo nosso programa, com participação na Estação Espacial Internacional, um lançador de satélites próprio e diversas espaçonaves em desenvolvimento. Nada disso decolou, e eles deixaram a gente para trás. Construíram seu próprio satélite geoestacionário, enquanto estamos pagando aos europeus meio bilhão de reais para construir o “nosso”. Eles estão prestes a testar seu próprio lançador de satélites, enquanto o nosso VLS segue deixado às traças. E não custa lembrar que fomos expulsos da Estação Espacial Internacional depois que passamos uma década inteira sem entregar uma peça sequer das que prometemos à Nasa. E tem gente que ainda acha que a Petrobras é nosso único problema…

6- SONEAR e os cometas brasileiros

Astrofotógrafo amador Michael Jäger registra o cometa Jacques, descoberto pelo SONEAR.
Astrofotógrafo amador Michael Jäger registra o cometa Jacques, descoberto pelo SONEAR.

Aí tem uns que põem a culpa nos cientistas brasileiros, em vez de enxergar a crise gerencial e política de nossos programas. Para demonstrar que não é esse o caso, nada melhor que lembrar os feitos de um grupo de astrônomos amadores de Minas Gerais. Na pequena cidade de Oliveira, a 150 km de Belo Horizonte, eles conceberam, construíram e operaram durante 2014 um observatório dedicado a descobrir asteroides próximos da Terra. Chamado SONEAR (sigla inglesa para Observatório Austral para Pesquisa de Asteroides Próximos à Terra), ele é um esforço solitário em todo o hemisfério Sul e teve um primeiro ano sensacional. O grupo liderado pelo astrônomo amador Cristóvão Jacques encontrou 11 novos asteroides próximos, dois dos quais potencialmente perigosos (felizmente nenhum deles em rota de colisão), além de outros 10 asteroides no cinturão entre Marte e Júpiter. Isso sem falar em dois cometas — os dois primeiros objetos do tipo descobertos por astrônomos brasileiros usando telescópio brasileiro em solo brasileiro. E quanto isso tudo custou aos cofres públicos? Nada. O investimento foi todo feito pelos próprios astrônomos, num esforço para desbravar o desconhecido, proteger nosso planeta e elevar o nome do Brasil no cenário internacional. Por que iniciativas como essa, feitas com dinheiro privado e muito suor por parte dos envolvidos, dão tão certo, enquanto esforços públicos parecem ser um ralo de dinheiro sem fim, onde quase nada é realizado? Essa questão fica como lição de casa para o leitor.

5- Hawking, Hawking e mais Hawking

Stephen Hawking arrepiou em 2014, com afirmações chocantes.
Stephen Hawking arrepiou em 2014, com afirmações chocantes.

Em janeiro, ele disse que buracos negros não existiam. Em setembro, afirmou que a manipulação do bóson de Higgs, descoberto em 2012 no acelerador de partículas LHC, podia ocasionar a destruição do Universo. E, em dezembro, ele disse que o desenvolvimento iminente de máquinas inteligentes é a maior ameaça existencial à civilização. Quem afinal é o marqueteiro do físico britânico Stephen Hawking, João Santana? Das três estocadas que ele deu neste ano, a mais controversa, por incrível que pareça, é a dos buracos negros. Muitos cientistas não estão convencidos de sua afirmação, apresentada sem cálculos que a justificassem adequadamente. Já seus alertas sobre o bóson e sobre a inteligência artificial fazem parte de um consenso científico, mas ganham um realce todo especial quando apresentados pelo cientista mais famoso do mundo. E, ao que tudo indica, Hawking não pretende abdicar do posto em 2015. Ele também já declarou que gostaria de viver um vilão de James Bond no cinema. Gênio da física e da publicidade.

4- Indianos em Marte, e a caça aos marcianos

Concepção artística da MOM, primeira missão indiana a Marte.
Concepção artística da MOM, primeira missão indiana a Marte.

Em 23 de setembro, após uma longa viagem interplanetária, a sonda indiana MOM (sigla para Mars Orbiter Mission) conseguiu entrar em órbita de Marte. Pela primeira vez uma nação solitária conseguiu ter sucesso numa missão orbital marciana em sua primeira tentativa. (A ESA acertou de primeira com sua Mars Express, mas representava um consórcio de países europeus.) Entre os objetivos da MOM está a detecção de metano na atmosfera marciana, gás que pode estar associado a atividade biológica no planeta vermelho. Diversas sondas orbitais anteriores haviam detectado metano no rarefeito ar marciano, mas o grande avanço em 2014 foi feito pelo jipe Curiosity, da Nasa. Em dezembro, cientistas ligados à agência espacial americana anunciaram a confirmação da detecção do gás, emitido de uma fonte próxima ao local do veículo. Resta saber se ele é produzido por micróbios ou por atividade geológica. De toda forma, está aberta a temporada de caça aos marcianos.

3- Dores de crescimento no espaço

Imagem da VSS Enterprise em voo-teste. Acidente despedaçou o veículo.
Imagem da VSS Enterprise em voo-teste. Acidente despedaçou o veículo.

A tendência de aumento da participação da iniciativa privada na conquista espacial segue em alta, mas dois acidentes ocorridos em 2014 nos ensinam que as coisas não serão tão fáceis quanto supunham os mais otimistas. Em 28 de outubro, um cargueiro Cygnus, destinado a levar suprimentos à Estação Espacial Internacional, explodiu pouco depois do lançamento, por falha do foguete que o transportava, o Antares. Três dias depois, uma falha com o veículo suborbital VSS Enterprise levou à morte de um dos dois pilotos e provocou uma crise para a empresa Virgin Galactic, que pretendia usar a nave para promover voos turísticos ao espaço a partir de 2015. É um lembrete importante de como, mesmo depois de mais de meio século, a tecnologia para missões espaciais ainda é delicada e perigosa. Os acidentes também colocam em xeque a viabilidade do plano impulsionado pelo presidente Barack Obama de usar empresas privadas para fornecer serviços de transporte de cargas e tripulações à órbita terrestre baixa para a Nasa. O Mensageiro Sideral acredita que essas sejam inevitáveis dores de crescimento e ainda guarda enorme entusiasmo pela estratégia. Vai funcionar. É só dar tempo ao tempo.

2- A era dos planetas habitáveis

Concepção artística do planeta Kepler-186f: mesmo tamanho da Terra e capaz de abrigar água em estado líquido
Concepção artística do planeta Kepler-186f: mesmo tamanho da Terra e capaz de abrigar água em estado líquido

Descobertas entusiasmantes foram feitas em 2014, inaugurando uma nova era na pesquisa de exoplanetas. Em abril, usando dados do telescópio espacial Kepler, astrônomos americanos descobriram um planeta em torno de uma estrela anã vermelha que tem praticamente o mesmo tamanho da Terra. Além disso, ele está na região certa de seu sistema planetário para a preservação de água em estado líquido, condição essencial à vida. O único senão é que o Kepler-186f, como ficou conhecido, está um pouco distante para futuras investigações mais detalhadas: cerca de 490 anos-luz de distância. Mas ele decerto não é incomum. Em agosto, outro grupo de astrônomos descobriu um mundo potencialmente rochoso e habitável, como a Terra, em torno de uma estrela muito velha, com quase 12 bilhões de anos. O planeta Kapteyn b pode portanto ter abrigado vida muito antes que nosso mundo sequer existisse! E ele está a apenas 13 anos-luz daqui. Nos próximos anos, muitos planetas como esses serão descobertos e os astrônomos terão condições de investigar a composição atmosférica desses orbes celestes. Talvez daí saia a constatação de que, afinal, não estamos mesmo sozinhos no Universo.

1- O primeiro pouso num cometa

Imagem mostra um dos pés do Philae, na superfície do cometa.
Imagem mostra um dos pés do Philae, na superfície do cometa.

Não há como negar que o evento mais espetacular de 2014 foi o primeiro pouso feito por um artefato humano num cometa. O sucesso obtido pela ESA (Agência Espacial Europeia) com a missão Rosetta é um daqueles momentos em que não há como não se entusiasmar com a capacidade de realização humana. É nessas horas que, pelo menos por um instante ou dois, ousamos acreditar que não há desafio que não possamos conquistar e que nosso destino como espécie é mais brilhante do que sugerem os pessimistas apocalípticos. Isso sem falar na ciência. A descida do módulo de pouso Philae ao cometa Churyumov-Gerasimenko já encantou o mundo, mas ainda promete render muitos anos de trabalho aos pesquisadores. E pode se preparar que em 2015 deve ter mais: os técnicos e engenheiros da ESA estão confiantes de que, a partir de fevereiro, o Philae recarregará suas baterias e voltará a transmitir informações diretamente da superfície do astro. O show ainda não acabou.

NA TV: Neste sábado (27), na GloboNews, o Mensageiro Sideral faz em vídeo sua retrospectiva dos principais eventos que marcaram a exploração espacial em 2014, abordando o pouso do Philae, a descoberta de planetas similares à Terra e os acidentes dos foguetes comerciais americanos. Não perca, sábado, a partir das 22h, no Jornal das Dez da GloboNews!

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